História Eclesiástica - Eusébio Cesareia (continuação)
Boa Leitura!
1. Muitos, pois, conservam ainda até hoje em grande número documentos do zelo virtuoso dos antigos eclesiásticos de então. Alguns nós mesmos chegamos a ler, como são os escritos de Heráclito Sobre o Apóstolo, e os de Máximo Sobre o problema da origem do mal, e De como a matéria é criada, problema famosíssimo entre os hereges; e também os de Cândido Sobre o Hexameron e os de Apion, sobre o mesmo tema, assim como os de Sexto Sobre a ressurreição; outro tratado de Arabiano e muitos outros, dos quais, por não ter um ponto de referência, não é possível transmitir por escrito a data nem insinuar alguma memória de sua história. Mas chegaram também até nós tratados de muitos outros, dos quais não é possível catalogar os nomes, autores ortodoxos e eclesiásticos, como certamente demonstram as corretas interpretações da Escritura divina. Mesmo assim, são para nós desconhecidos porque não se dá o nome de seus autores.
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sábado, 29 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Quanto chegou a nós de Irineu
-- Desculpem, eu não ter postado nada do Philip Schaff, mas o meu disco interno pifou, e toda a tradução que tinha feito também desapareceu, no entanto espero a partir de amanha começar outra vez, a traduzir e a postar devagar os textos, visto não ter muito tempo.. Obrigado! :)
História Eclesiástica - Eusébio Cesareia (continuação)
Boa Leitura!
1. Acontece que além dos escritos e cartas de Irineu já mencionados, conservam-se dele um tratado contra os gregos, curtíssimo e bastante peremptório, intitulado Sobre a ciência, e outro que dedicou a seu irmão, chamado Marciano, Em demonstração da pregação apostólica, assim como um livro de Dissertações variadas, no qual faz menção à Carta aos Hebreus e à chamada Sabedoria de Salomão, citando deles algumas sentenças. E isto é o que chegou a nosso conhecimento dos escritos de Irineu393. E tendo Cómodo terminado seu império ao fim de treze anos e depois de Pertinax manter-se depois de Cómodo uns seis meses incompletos, prevalece como imperador Severo.
393 Todas as obras mencionadas foram perdidas, excepto a Demonstração da pregação apostólica, encontrada em 1904 numa versão armena.
História Eclesiástica - Eusébio Cesareia (continuação)
Boa Leitura!
1. Acontece que além dos escritos e cartas de Irineu já mencionados, conservam-se dele um tratado contra os gregos, curtíssimo e bastante peremptório, intitulado Sobre a ciência, e outro que dedicou a seu irmão, chamado Marciano, Em demonstração da pregação apostólica, assim como um livro de Dissertações variadas, no qual faz menção à Carta aos Hebreus e à chamada Sabedoria de Salomão, citando deles algumas sentenças. E isto é o que chegou a nosso conhecimento dos escritos de Irineu393. E tendo Cómodo terminado seu império ao fim de treze anos e depois de Pertinax manter-se depois de Cómodo uns seis meses incompletos, prevalece como imperador Severo.
393 Todas as obras mencionadas foram perdidas, excepto a Demonstração da pregação apostólica, encontrada em 1904 numa versão armena.
sábado, 10 de setembro de 2011
O que Irineu discute por escrito com os cismáticos de Roma
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Contrariamente aos que em Roma falsificavam o são estatuto da Igreja, Irineu compôs várias cartas: uma que intitulou A Blasto, sobre o cisma; outra, A Florino, sobre a monarquia ou que Deus não é o autor dos males, já que, ao que parece, Florino defendia esta opinião, e como também estivesse seduzido pelo erro de Valentim, Irineu compôs outro trabalho, Sobre a Ogdoada, na qual dá a entender que ele mesmo recebeu a primeira sucessão dos apóstolos.
2.Perto do final da obra encontramos uma grata indicação sua que necessariamente temos que registar no presente escrito, e que diz desta maneira: "Conjuro-te que copies este livro, por nosso Senhor Jesus Cristo e por sua vinda gloriosa, quando vier julgar os vivos e os mortos, que compares o que transcreves e o corrijas cuidadosamente conforme este exemplar de onde o copiaste. E copiarás igualmente este conjuro e o porás na cópia."
3.Advertência útil para quem a fez e para nós, que a referimos, para que tenhamos aqueles antigos e realmente sagrados varões como o melhor exemplo de solicitude diligentíssima.
4.Na Carta a Florino de que falamos acima, Irineu novamente menciona sua convivência familiar com Policarpo, dizendo:"Estas opiniões, Florino, falando com moderação, não são próprias de um pensamento são. Estas opiniões destoam das da Igreja e lançam na maior impiedade aos que as obedecem; estas opiniões nem sequer os hereges que estão fora da Igreja atreveram-se alguma vez a proclamar; estas opiniões não te foram transmitidas pelos presbíteros que nos precederam, os que juntos frequentaram a companhia dos apóstolos.
5.Porque sendo eu ainda criança, te vi na casa de Policarpo na Ásia inferior382, quando tinhas uma brilhante actuação no palácio imperial383 e te esforçavas para ter crédito perante ele. E recordo-me mais dos fatos de então do que dos recentes.
6.(o que se aprende em criança vai crescendo com a alma e vai se tornando um com ela), tanto que posso inclusive dizer o local em que o bem-aventurado Policarpo dialogava sentado, assim como suas saídas e entradas, seu modo de vida e o aspecto de seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como descrevia suas relações com João e com os demais que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras de uns e de outros; e o que tinha ouvido deles sobre o Senhor, seus milagres e seu ensinamento; e como Policarpo, depois de tê-lo recebido destas testemunhas oculares da vida do Verbo, relata tudo em consonância com as Escrituras.
7.E estas coisas, pela misericórdia que Deus teve para comigo, também eu escutava então diligentemente e as anotava, mas não em papel, mas em meu coração, e pela graça de Deus, sempre as estou ruminando fielmente e posso testemunhar diante de Deus que, se aquele bem-aventurado e apostólico presbítero tivesse escutado algo semelhante, teria lançado um grito, teria tampado os ouvidos e, dizendo como era seu costume: "Deus bondoso! Até que tempos me conservaste, para ter que suportar estas coisas!", teria até fugido do local em que estava sentado ou de pé quando escutou
8. Isto pode-se também comprovar claramente pelas cartas que escreveu, seja às igrejas vizinhas, confortando-as, seja a alguns irmãos admoestando-os e exortando-os" isto diz Irineu.
382 Inferior ou baixa, significando costeira, não é denominação administrativa.
383 Não consta que por essa época (ca. 150-155) o imperador habitasse na Ásia.
tais palavras.
Boa Leitura!
1.Contrariamente aos que em Roma falsificavam o são estatuto da Igreja, Irineu compôs várias cartas: uma que intitulou A Blasto, sobre o cisma; outra, A Florino, sobre a monarquia ou que Deus não é o autor dos males, já que, ao que parece, Florino defendia esta opinião, e como também estivesse seduzido pelo erro de Valentim, Irineu compôs outro trabalho, Sobre a Ogdoada, na qual dá a entender que ele mesmo recebeu a primeira sucessão dos apóstolos.
2.Perto do final da obra encontramos uma grata indicação sua que necessariamente temos que registar no presente escrito, e que diz desta maneira: "Conjuro-te que copies este livro, por nosso Senhor Jesus Cristo e por sua vinda gloriosa, quando vier julgar os vivos e os mortos, que compares o que transcreves e o corrijas cuidadosamente conforme este exemplar de onde o copiaste. E copiarás igualmente este conjuro e o porás na cópia."
3.Advertência útil para quem a fez e para nós, que a referimos, para que tenhamos aqueles antigos e realmente sagrados varões como o melhor exemplo de solicitude diligentíssima.
4.Na Carta a Florino de que falamos acima, Irineu novamente menciona sua convivência familiar com Policarpo, dizendo:"Estas opiniões, Florino, falando com moderação, não são próprias de um pensamento são. Estas opiniões destoam das da Igreja e lançam na maior impiedade aos que as obedecem; estas opiniões nem sequer os hereges que estão fora da Igreja atreveram-se alguma vez a proclamar; estas opiniões não te foram transmitidas pelos presbíteros que nos precederam, os que juntos frequentaram a companhia dos apóstolos.
5.Porque sendo eu ainda criança, te vi na casa de Policarpo na Ásia inferior382, quando tinhas uma brilhante actuação no palácio imperial383 e te esforçavas para ter crédito perante ele. E recordo-me mais dos fatos de então do que dos recentes.
6.(o que se aprende em criança vai crescendo com a alma e vai se tornando um com ela), tanto que posso inclusive dizer o local em que o bem-aventurado Policarpo dialogava sentado, assim como suas saídas e entradas, seu modo de vida e o aspecto de seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como descrevia suas relações com João e com os demais que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras de uns e de outros; e o que tinha ouvido deles sobre o Senhor, seus milagres e seu ensinamento; e como Policarpo, depois de tê-lo recebido destas testemunhas oculares da vida do Verbo, relata tudo em consonância com as Escrituras.
7.E estas coisas, pela misericórdia que Deus teve para comigo, também eu escutava então diligentemente e as anotava, mas não em papel, mas em meu coração, e pela graça de Deus, sempre as estou ruminando fielmente e posso testemunhar diante de Deus que, se aquele bem-aventurado e apostólico presbítero tivesse escutado algo semelhante, teria lançado um grito, teria tampado os ouvidos e, dizendo como era seu costume: "Deus bondoso! Até que tempos me conservaste, para ter que suportar estas coisas!", teria até fugido do local em que estava sentado ou de pé quando escutou
8. Isto pode-se também comprovar claramente pelas cartas que escreveu, seja às igrejas vizinhas, confortando-as, seja a alguns irmãos admoestando-os e exortando-os" isto diz Irineu.
382 Inferior ou baixa, significando costeira, não é denominação administrativa.
383 Não consta que por essa época (ca. 150-155) o imperador habitasse na Ásia.
tais palavras.
sábado, 3 de setembro de 2011
De Serapion sobre a heresia dos frígios
Desculpem ter parado de postar durante estas últimas semanas, sem ter avisado... Espero agora continuar com as postagens normais.. Salve!
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.As obras de Apolinário contra a referida heresia são mencionadas por Serapion, que, segundo quer uma tradição, foi bispo da igreja de Antioquia nos tempos a que nos referimos, depois de Maximino. Menciona-o numa carta particular dirigida a Carico e Pôncio, na qual, refutando também ele a mesma heresia, acrescenta o que segue:
2."Mas, para que também saibais que a influência desta enganosa tropa - a chamada nova profecia - é abominada por todos os irmãos do mundo, enviei-vos também uns escritos de Cláudio Apolinário, bispo beatíssimo que foi de Hierápolis da Ásia."
3.Na mesma carta de Serapion conservam-se também as assinaturas de diversos bispos, um dos quais assina assim: "Aurélio Cirinio, mártir: rogo que estejais bem"; e outro desta maneira: "Elio Publio Júlio, bispo de Develto, colónia da Tracia: vive o Deus dos céus, que o bem aventurado Sotas de Anquialo quis expulsar o demónio de Priscila, e os hipócritas não o deixaram."
4. Também se conservam na carta aludida as assinaturas autografas de muitos outros bispos que estão de acordo com estes. Isto é o que há sobre eles.
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.As obras de Apolinário contra a referida heresia são mencionadas por Serapion, que, segundo quer uma tradição, foi bispo da igreja de Antioquia nos tempos a que nos referimos, depois de Maximino. Menciona-o numa carta particular dirigida a Carico e Pôncio, na qual, refutando também ele a mesma heresia, acrescenta o que segue:
2."Mas, para que também saibais que a influência desta enganosa tropa - a chamada nova profecia - é abominada por todos os irmãos do mundo, enviei-vos também uns escritos de Cláudio Apolinário, bispo beatíssimo que foi de Hierápolis da Ásia."
3.Na mesma carta de Serapion conservam-se também as assinaturas de diversos bispos, um dos quais assina assim: "Aurélio Cirinio, mártir: rogo que estejais bem"; e outro desta maneira: "Elio Publio Júlio, bispo de Develto, colónia da Tracia: vive o Deus dos céus, que o bem aventurado Sotas de Anquialo quis expulsar o demónio de Priscila, e os hipócritas não o deixaram."
4. Também se conservam na carta aludida as assinaturas autografas de muitos outros bispos que estão de acordo com estes. Isto é o que há sobre eles.
sábado, 4 de junho de 2011
De como Irineu menciona as diversas Escrituras
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Posto que ao dar início a esta obra348 prometemos citar oportunamente as palavras dos antigos presbíteros e escritores eclesiásticos, nas quais nos transmitiram por escrito as tradições chegadas até eles sobre as Escrituras canônicas, e como Irineu era um destes, citemos também suas palavras:
2.E em primeiro lugar as que se referem aos sagrados evangelhos; são as seguintes: "Mateus publicou entre os hebreus, em sua própria língua, um Evangelho também escrito349, enquanto Pedro e Paulo estavam em Roma evangelizando e lançando os fundamentos da Igreja.
3."Depois da morte destes, Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos por escrito, também ele, o que Pedro havia pregado. E Lucas, por sua parte, o seguidor de Paulo, colocou em livro o Evangelho que este havia pregado.
4.Finalmente João, o discípulo do Senhor, o que havia se reclinado sobre seu peito, também ele publicou o Evangelho, enquanto morava em Éfeso da Ásia."
5.Isto é o que diz o livro terceiro antes mencionado da dita obra, mas no quinto expressa-se acerca do Apocalipse de João e do número do nome do anticristo350 como segue: "Sendo isto assim e encontrando-se este número em todas as boas e antigas cópias, e atestando-o aqueles mesmos que viram João face a face, e visto que a razão nos ensina que o número do nome da besta aparece manifesto segundo o cálculo dos gregos por meio das letras que nele há..."
6. E um pouco mais abaixo segue dizendo sobre o mesmo: "Nós pois, não nos arrisquemos a manifestarmo-nos de maneira segura sobre o nome do anticristo, porque, se houvesse sido necessário na presente ocasião proclamar abertamente seu nome, ter-se-ia feito por meio daquele que também tinha visto o Apocalipse, já que não faz muito tempo que foi visto, mas quase em nossa geração, ao final do império de Domiciano."
7. Isto é o que o citado autor refere acerca do Apocalipse, mas menciona também a primeira carta de João ao apresentar numerosos testemunhos tirados dela, assim como da primeira de Pedro; e não apenas conhece, mas também aceita351 o escrito do Pastor quando diz: "Porque bem diz a Escritura: O primeiro de tudo, crê que há um só Deus, o que criou e ordenou tudo, etc."
8. E até utiliza algumas sentenças tiradas da Sabedoria de Salomão, dizendo mais ou menos: "Visão de Deus que produz incorrupção; e a incorrupção faz estar perto de Deus", e menciona as Memórias de certo presbítero apostólico, sobre cujo nome silenciou, e cita suas Explicações das divinas Escrituras.
9.Faz menção ainda ao mártir Justino e a Inácio, utilizando uma vez mais testemunhos tirados das obras escritas por eles, e promete refutar ele mesmo, com trabalho próprio, a Márcion, partindo de seus escritos.
10.E quanto à tradução das Escrituras inspiradas realizada pelos Setenta, ouve o que escreve textualmente: "Deus pois fez-se homem, e o Senhor mesmo nos salvou, depois de dar-nos o sinal da Virgem, mas não como dizem alguns de agora que se atrevem a traduzir a Escritura: Eis aqui que a jovem conceberá em seu ventre e dará à luz um filho352, como traduziram Teodósio, o de Éfeso, e Áquila, o do Ponto, ambos judeus prosélitos, aos que seguem os ebionitas quando dizem que Ele nasceu de José."
11. Depois de um breve espaço, acrescenta ao dito: "Efectivamente, antes que os romanos fizessem prevalecer seu governo e quando os macedónios ainda dominavam a Ásia, Ptolomeu, filho de Lagos, ambicionando adornar a biblioteca por ele organizada em Alexandria com as obras de todos os homens, ao menos as boas, pediu aos de Jerusalém para ter traduzidas em língua grega suas Escrituras.
12.Eles, que então ainda estavam submetidos aos macedónios, enviaram a Ptolomeu setenta anciãos, os mais versados dentre eles nas escrituras e em ambas as línguas. Deus fazia precisamente o que queria.
13.Ptolomeu, querendo testá-los separadamente e evitando que se pusessem de acordo para ocultar por meio da tradução o que há de verdade nas Escrituras, separou-os uns dos outros e ordenou que escrevessem a mesma tradução, e assim fez com todos os livros.
14.Mas logo que se reuniram junto a Ptolomeu e cada um comparou sua própria tradução, Deus foi glorificado e as Escrituras foram reconhecidas como verdadeiramente divinas: todos haviam proclamado as mesmas coisas com as mesmas expressões e os mesmos nomes, desde o começo até o fim, de forma que até os pagãos ali presentes reconheceram que as Escrituras foram traduzidas sob a inspiração de Deus.
15.E não há que estranhar que Deus fizesse isto, porque foi Ele que, havendo sido destruídas as Escrituras no cativeiro do povo sob Nabucodonosor e tendo os judeus regressado a seu país depois de setenta anos, logo, nos tempo de Artaxerxes, rei dos persas, inspirou o sacerdote Esdras, da tribo de Levi, a refazer todas as palavras dos profetas que o haviam precedido e restituir ao povo a legislação dada por meio de Moisés."
Tudo isto diz Irineu.
348 Vide I:I:1;III:III: 1-3.
349 Supõe-se as duas formas: oral e escrita.
350 Ap 13:18.
351 i.e. aceita-o entre as Escrituras canônicas.
352 Os Setenta traduzem "partenas" (virgem), enquanto os outros traduzem "neanis" (jovem).
Boa Leitura!
1.Posto que ao dar início a esta obra348 prometemos citar oportunamente as palavras dos antigos presbíteros e escritores eclesiásticos, nas quais nos transmitiram por escrito as tradições chegadas até eles sobre as Escrituras canônicas, e como Irineu era um destes, citemos também suas palavras:
2.E em primeiro lugar as que se referem aos sagrados evangelhos; são as seguintes: "Mateus publicou entre os hebreus, em sua própria língua, um Evangelho também escrito349, enquanto Pedro e Paulo estavam em Roma evangelizando e lançando os fundamentos da Igreja.
3."Depois da morte destes, Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos por escrito, também ele, o que Pedro havia pregado. E Lucas, por sua parte, o seguidor de Paulo, colocou em livro o Evangelho que este havia pregado.
4.Finalmente João, o discípulo do Senhor, o que havia se reclinado sobre seu peito, também ele publicou o Evangelho, enquanto morava em Éfeso da Ásia."
5.Isto é o que diz o livro terceiro antes mencionado da dita obra, mas no quinto expressa-se acerca do Apocalipse de João e do número do nome do anticristo350 como segue: "Sendo isto assim e encontrando-se este número em todas as boas e antigas cópias, e atestando-o aqueles mesmos que viram João face a face, e visto que a razão nos ensina que o número do nome da besta aparece manifesto segundo o cálculo dos gregos por meio das letras que nele há..."
6. E um pouco mais abaixo segue dizendo sobre o mesmo: "Nós pois, não nos arrisquemos a manifestarmo-nos de maneira segura sobre o nome do anticristo, porque, se houvesse sido necessário na presente ocasião proclamar abertamente seu nome, ter-se-ia feito por meio daquele que também tinha visto o Apocalipse, já que não faz muito tempo que foi visto, mas quase em nossa geração, ao final do império de Domiciano."
7. Isto é o que o citado autor refere acerca do Apocalipse, mas menciona também a primeira carta de João ao apresentar numerosos testemunhos tirados dela, assim como da primeira de Pedro; e não apenas conhece, mas também aceita351 o escrito do Pastor quando diz: "Porque bem diz a Escritura: O primeiro de tudo, crê que há um só Deus, o que criou e ordenou tudo, etc."
8. E até utiliza algumas sentenças tiradas da Sabedoria de Salomão, dizendo mais ou menos: "Visão de Deus que produz incorrupção; e a incorrupção faz estar perto de Deus", e menciona as Memórias de certo presbítero apostólico, sobre cujo nome silenciou, e cita suas Explicações das divinas Escrituras.
9.Faz menção ainda ao mártir Justino e a Inácio, utilizando uma vez mais testemunhos tirados das obras escritas por eles, e promete refutar ele mesmo, com trabalho próprio, a Márcion, partindo de seus escritos.
10.E quanto à tradução das Escrituras inspiradas realizada pelos Setenta, ouve o que escreve textualmente: "Deus pois fez-se homem, e o Senhor mesmo nos salvou, depois de dar-nos o sinal da Virgem, mas não como dizem alguns de agora que se atrevem a traduzir a Escritura: Eis aqui que a jovem conceberá em seu ventre e dará à luz um filho352, como traduziram Teodósio, o de Éfeso, e Áquila, o do Ponto, ambos judeus prosélitos, aos que seguem os ebionitas quando dizem que Ele nasceu de José."
11. Depois de um breve espaço, acrescenta ao dito: "Efectivamente, antes que os romanos fizessem prevalecer seu governo e quando os macedónios ainda dominavam a Ásia, Ptolomeu, filho de Lagos, ambicionando adornar a biblioteca por ele organizada em Alexandria com as obras de todos os homens, ao menos as boas, pediu aos de Jerusalém para ter traduzidas em língua grega suas Escrituras.
12.Eles, que então ainda estavam submetidos aos macedónios, enviaram a Ptolomeu setenta anciãos, os mais versados dentre eles nas escrituras e em ambas as línguas. Deus fazia precisamente o que queria.
13.Ptolomeu, querendo testá-los separadamente e evitando que se pusessem de acordo para ocultar por meio da tradução o que há de verdade nas Escrituras, separou-os uns dos outros e ordenou que escrevessem a mesma tradução, e assim fez com todos os livros.
14.Mas logo que se reuniram junto a Ptolomeu e cada um comparou sua própria tradução, Deus foi glorificado e as Escrituras foram reconhecidas como verdadeiramente divinas: todos haviam proclamado as mesmas coisas com as mesmas expressões e os mesmos nomes, desde o começo até o fim, de forma que até os pagãos ali presentes reconheceram que as Escrituras foram traduzidas sob a inspiração de Deus.
15.E não há que estranhar que Deus fizesse isto, porque foi Ele que, havendo sido destruídas as Escrituras no cativeiro do povo sob Nabucodonosor e tendo os judeus regressado a seu país depois de setenta anos, logo, nos tempo de Artaxerxes, rei dos persas, inspirou o sacerdote Esdras, da tribo de Levi, a refazer todas as palavras dos profetas que o haviam precedido e restituir ao povo a legislação dada por meio de Moisés."
Tudo isto diz Irineu.
348 Vide I:I:1;III:III: 1-3.
349 Supõe-se as duas formas: oral e escrita.
350 Ap 13:18.
351 i.e. aceita-o entre as Escrituras canônicas.
352 Os Setenta traduzem "partenas" (virgem), enquanto os outros traduzem "neanis" (jovem).
sábado, 14 de maio de 2011
De como Deus atendeu as orações dos nossos e fez chover do céu para o imperador Marco Aurélio
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.E tradição que o irmão deste, Marco Aurélio César, estando em ordem de batalha frente aos germânicos e aos sármatas, passava grande dificuldade por causa da sede que castigava seu exército. Mas os soldados que serviam sob a assim chamada legião de Melitene343 - que por sua fé subsiste desde então até hoje -, formados frente ao inimigo, puseram seus joelhos no chão, segundo nosso familiar costume de orar, e dirigiram suas súplicas a Deus.
2.Tal espectáculo pareceu, na verdade, muito estranho aos inimigos, mas outro documento conta que no mesmo instante foram surpreendidos por outro espectáculo ainda mais estranho: um furacão punha em fuga e aniquilava os inimigos, enquanto que a chuva caía sobre o exército dos que haviam invocado o socorro divino e o reanimava quando já estava todo ele a ponto de perecer pela sede.
3.O relato conserva-se inclusive entre os escritores alheios a nossa doutrina que se preocuparam em escrever sobre aqueles tempos. Também os nossos o dão a conhecer. No entanto, os historiadores de fora, alheios a nossa fé, expõe o prodígio mas não confessam que este se realizou pelas orações dos nossos; já os nossos, como amantes da verdade, transmitem o ocorrido com simplicidade e sem malícia.
4.Destes poderia ser também Apolinário, que afirma que a legião autora do prodígio por sua oração recebeu do imperador, a partir de então, um nome adequado ao sucedido, que em língua latina se diz Fulmínea.
5.Testemunha destes fatos, digno de crédito, poderia também ser Tertuliano, que dirigiu ao senado a Apologia latina em favor da fé, da qual fizemos menção mais acima344, e confirma o relato com uma demonstração mais ampla e mais clara.
6.Escreve pois também ele e diz que até agora conservam-se cartas de Marco, o imperador mais sábio, nas quais ele mesmo atesta que, estando seu exército a ponto de perecer na Germania e por falta de água, salvou-se pelas orações dos cristãos. E segue dizendo Tertuliano que o imperador ameaçou inclusive com a pena de morte aos que tentassem acusar-nos.
7. A tudo isso o mesmo autor junta o seguinte: "Que tipo de leis são estas então, ímpias, injustas e cruéis, seguidas somente contra nós? Vespasiano não as observou, apesar de ter vencido os judeus; Trajano teve-as em parte como nada, ao impedir que se perseguissem os cristãos, e Adriano, apesar de ocupar-se com muita curiosidade com muitas coisas, não as sancionou, como tampouco o que é chamado Pio." Mas isto, que cada um o deixe onde quiser.
8.Nós, por nossa parte, voltemos ao fio do que se segue. Quando Potino, com seus noventa anos cumpridos, morreu em companhia dos mártires da Gália, Irineu recebeu em sucessão o episcopado da igreja de Lion, que Potino havia regido. Sabemos que ele, em sua juventude, foi ouvinte de Policarpo.
9.No livro terceiro de sua obra Contra as heresias expõe a sucessão dos bispos de Roma até Eleutério, de cuja época também investigamos os acontecimentos, e estabelece a lista como se, de fato, sua obra fosse composta nos tempos deste; escreve como segue:
343 Importante cidade da Capadócia, sede da XII legião. Não é estranho que tivesse em suas fileiras bom número de
cristãos, ainda que não fossem a maioria.
344 Vide II:2:4; 25:4; III:33:3. O Apologeticum. não foi dirigido ao senado, mas aos governadores.
Boa Leitura!
1.E tradição que o irmão deste, Marco Aurélio César, estando em ordem de batalha frente aos germânicos e aos sármatas, passava grande dificuldade por causa da sede que castigava seu exército. Mas os soldados que serviam sob a assim chamada legião de Melitene343 - que por sua fé subsiste desde então até hoje -, formados frente ao inimigo, puseram seus joelhos no chão, segundo nosso familiar costume de orar, e dirigiram suas súplicas a Deus.
2.Tal espectáculo pareceu, na verdade, muito estranho aos inimigos, mas outro documento conta que no mesmo instante foram surpreendidos por outro espectáculo ainda mais estranho: um furacão punha em fuga e aniquilava os inimigos, enquanto que a chuva caía sobre o exército dos que haviam invocado o socorro divino e o reanimava quando já estava todo ele a ponto de perecer pela sede.
3.O relato conserva-se inclusive entre os escritores alheios a nossa doutrina que se preocuparam em escrever sobre aqueles tempos. Também os nossos o dão a conhecer. No entanto, os historiadores de fora, alheios a nossa fé, expõe o prodígio mas não confessam que este se realizou pelas orações dos nossos; já os nossos, como amantes da verdade, transmitem o ocorrido com simplicidade e sem malícia.
4.Destes poderia ser também Apolinário, que afirma que a legião autora do prodígio por sua oração recebeu do imperador, a partir de então, um nome adequado ao sucedido, que em língua latina se diz Fulmínea.
5.Testemunha destes fatos, digno de crédito, poderia também ser Tertuliano, que dirigiu ao senado a Apologia latina em favor da fé, da qual fizemos menção mais acima344, e confirma o relato com uma demonstração mais ampla e mais clara.
6.Escreve pois também ele e diz que até agora conservam-se cartas de Marco, o imperador mais sábio, nas quais ele mesmo atesta que, estando seu exército a ponto de perecer na Germania e por falta de água, salvou-se pelas orações dos cristãos. E segue dizendo Tertuliano que o imperador ameaçou inclusive com a pena de morte aos que tentassem acusar-nos.
7. A tudo isso o mesmo autor junta o seguinte: "Que tipo de leis são estas então, ímpias, injustas e cruéis, seguidas somente contra nós? Vespasiano não as observou, apesar de ter vencido os judeus; Trajano teve-as em parte como nada, ao impedir que se perseguissem os cristãos, e Adriano, apesar de ocupar-se com muita curiosidade com muitas coisas, não as sancionou, como tampouco o que é chamado Pio." Mas isto, que cada um o deixe onde quiser.
8.Nós, por nossa parte, voltemos ao fio do que se segue. Quando Potino, com seus noventa anos cumpridos, morreu em companhia dos mártires da Gália, Irineu recebeu em sucessão o episcopado da igreja de Lion, que Potino havia regido. Sabemos que ele, em sua juventude, foi ouvinte de Policarpo.
9.No livro terceiro de sua obra Contra as heresias expõe a sucessão dos bispos de Roma até Eleutério, de cuja época também investigamos os acontecimentos, e estabelece a lista como se, de fato, sua obra fosse composta nos tempos deste; escreve como segue:
343 Importante cidade da Capadócia, sede da XII legião. Não é estranho que tivesse em suas fileiras bom número de
cristãos, ainda que não fossem a maioria.
344 Vide II:2:4; 25:4; III:33:3. O Apologeticum. não foi dirigido ao senado, mas aos governadores.
sábado, 2 de abril de 2011
Livro V - Prólogo
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Assim pois, Sotero, o bispo da igreja de Roma, morreu depois de governar até seu oitavo ano, e foi sucedido por Eleutério, décimo segundo a partir dos apóstolos. Corria o décimo sétimo ano do imperador Antonino Vero. Neste tempo reavivou-se com maior violência em algumas partes da terra a perseguição contra nós e, pelos ataques dos habitantes das cidades, pode-se conjecturar que foram milhares os mártires que se distinguiram se levamos em conta o ocorrido em uma só nação, que por ser realmente digno de lembrança imorredoura, foi transmitido por escrito à posteridade.
2.O escrito inteiro do completíssimo relato sobre estes factos consta de nossa Recompilação de Martírios, que compreende uma explicação não apenas narrativa, mas também instrutiva. Na presente obra tomarei e citarei ao menos o que aquela contenha sobre o tema que nos ocupa.
3.Outros, ao fazerem as narrativas históricas, não transmitem por escrito mais do que vitórias em guerras, troféus de inimigos, façanhas de generais e valentias de soldados manchados de sangue e de mortes inumeráveis por causa dos filhos, da pátria e demais bens.
4.Nossa obra, por outro lado, que descreve o modo de vida segundo Deus, gravará em lápides eternas as mais pacíficas lutas pela própria paz da alma e o nome dos que nelas se comportaram varonilmente, mais pela verdade do que pela terra pátria, e mais pela religião do que pelos seres queridos, e se proclamará publicamente, para eterna memória, a resistência dos atletas da fé, sua bravura, curtida em mil sofrimentos, os troféus conquistados contra os demónios, as vitórias sobre os adversários invisíveis e, depois de tudo, suas coroas.
Boa Leitura!
1.Assim pois, Sotero, o bispo da igreja de Roma, morreu depois de governar até seu oitavo ano, e foi sucedido por Eleutério, décimo segundo a partir dos apóstolos. Corria o décimo sétimo ano do imperador Antonino Vero. Neste tempo reavivou-se com maior violência em algumas partes da terra a perseguição contra nós e, pelos ataques dos habitantes das cidades, pode-se conjecturar que foram milhares os mártires que se distinguiram se levamos em conta o ocorrido em uma só nação, que por ser realmente digno de lembrança imorredoura, foi transmitido por escrito à posteridade.
2.O escrito inteiro do completíssimo relato sobre estes factos consta de nossa Recompilação de Martírios, que compreende uma explicação não apenas narrativa, mas também instrutiva. Na presente obra tomarei e citarei ao menos o que aquela contenha sobre o tema que nos ocupa.
3.Outros, ao fazerem as narrativas históricas, não transmitem por escrito mais do que vitórias em guerras, troféus de inimigos, façanhas de generais e valentias de soldados manchados de sangue e de mortes inumeráveis por causa dos filhos, da pátria e demais bens.
4.Nossa obra, por outro lado, que descreve o modo de vida segundo Deus, gravará em lápides eternas as mais pacíficas lutas pela própria paz da alma e o nome dos que nelas se comportaram varonilmente, mais pela verdade do que pela terra pátria, e mais pela religião do que pelos seres queridos, e se proclamará publicamente, para eterna memória, a resistência dos atletas da fé, sua bravura, curtida em mil sofrimentos, os troféus conquistados contra os demónios, as vitórias sobre os adversários invisíveis e, depois de tudo, suas coroas.
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sábado, 12 de março de 2011
De Musano
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1. E também de Musano, citado em passagens precedentes, conserva-se certo tratado, muito persuasivo, que ele escreveu para alguns irmãos seus que se inclinavam à heresia dos chamados encratitas, que então acabava de nascer e começava a introduzir na vida seu estranho e pernicioso erro.
Boa Leitura!
1. E também de Musano, citado em passagens precedentes, conserva-se certo tratado, muito persuasivo, que ele escreveu para alguns irmãos seus que se inclinavam à heresia dos chamados encratitas, que então acabava de nascer e começava a introduzir na vida seu estranho e pernicioso erro.
sexta-feira, 11 de março de 2011
De Apolinário
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa leitura!
1. Sobre Apolinário, por outro lado, ainda que sejam muitas as obras que se conservaram entre muitas pessoas310, até nós chegaram as seguintes: O Discurso dirigido ao mencionado imperador, cinco livros Contra os gregos, dois Sobre a verdade, dois Contra os judeus, e também os que, depois destes, escreveu Contra a heresia dos frígios, que não muito depois iniciaria suas inovações, mas que já então começava a despontar, pois Montano, junto com suas falsas profetisas, já andava assentando os princípios do descaminho.
310 Exceto pelo que é dito nesta obra, nada sabemos sobre Cláudio Apolinário, bispo de Hierápolis. Todas as suas obras foram perdidas.
Boa leitura!
1. Sobre Apolinário, por outro lado, ainda que sejam muitas as obras que se conservaram entre muitas pessoas310, até nós chegaram as seguintes: O Discurso dirigido ao mencionado imperador, cinco livros Contra os gregos, dois Sobre a verdade, dois Contra os judeus, e também os que, depois destes, escreveu Contra a heresia dos frígios, que não muito depois iniciaria suas inovações, mas que já então começava a despontar, pois Montano, junto com suas falsas profetisas, já andava assentando os princípios do descaminho.
310 Exceto pelo que é dito nesta obra, nada sabemos sobre Cláudio Apolinário, bispo de Hierápolis. Todas as suas obras foram perdidas.
sexta-feira, 4 de março de 2011
De Meliton e dos que ele menciona
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Neste tempo floresciam também, muito destacados, Meliton, bispo da igreja de Sardes, e Apolinário, da de Hierápolis. Ambos, cada um em particular, dirigiram ao imperador romano já mencionado daquele tempo vários tratados apologéticos em favor da fé.
2.Deles chegaram até nós as seguintes obras. De Meliton, os dois livros Sobre a Páscoa e o livro Sobre a conduta e sobre os profetas; os tratados Sobre a Igreja e Sobre o domingo; ainda, Sobre a fé do homem305, Sobre a criação e Sobre a obediência dos sentidos à fé; além destes, os tratados Sobre a alma e o corpo...(.. .)306, Sobre o baptismo e sobre a verdade e sobre a fé e o nascimento de Cristo; um livro Sobre sua profecia; e Sobre a alma e o corpo307, Sobre a hospitalidade, A chave e os escritos Sobre o diabo e o Apocalipse de João e o livro Sobre Deus encarnado; e além de todos estes, um livrinho A Antonino.
3. Começando pois, o livro Sobre a Páscoa, indica o tempo em que o compôs, nestes termos: "Sob o procônsul da Ásia Servilio Paulo, tempo em que Sagaris sofreu martírio, houve em Laodicéia muitas disputas sobre a Páscoa, que caía precisamente naqueles dias, e escreveu-se isto."
4.Este tratado é mencionado por Clemente de Alexandria em seu Sobre a Páscoa, que ele mesmo diz ter composto por causa do escrito de Meliton. E no livrinho dirigido ao imperador conta Meliton que, sob este, deram-se contra nós coisas como estas:
5."Pois isto nunca havia ocorrido; agora persegue-se a linhagem dos adoradores de Deus308, afetados na Ásia por novos editos309. Efectivamente, os desavergonhados sicofantas e amantes do alheio, tomando pé nas prescrições, andam roubando abertamente, e expoliam de noite e de dia os que nada fizeram de mal."
6.E depois de outras coisas diz: "E se isto é feito porque tu o mandas, está bem-feito, porque nunca um imperador justo poderia querer algo injustamente, e nós suportamos com gosto a honra desta morte. Um só pedido, no entanto, te dirigimos: que tu mesmo examines primeiro os causadores de tal rivalidade e julgues com justiça se são dignos de morte e de castigo, ou de ficar salvos e tranquilos. Mas se não procedem de ti esta determinação e este novo edito - que nem sequer contra inimigos bárbaros seria conveniente -, com maior razão te pedimos que não nos abandones, indiferente a semelhante latrocínio público."
7. Ao dito acrescenta ainda isto: "Efectivamente, nossa filosofia alcançou sua plena maturidade entre bárbaros, mas havendo-se estendido também a teus povos sob o grande império de teu antepassado Augusto, converteu-se sobretudo para teu reinado em um bom augúrio, pois desde então a força dos romanos cresceu em grandeza e esplendor. Dela és tu o desejado herdeiro e seguirás sendo-o com teu filho, se proteges a filosofia que se criou com o império e começou quando Augusto e teus antepassados inclusive a honraram ao par com as outras religiões.
8.A prova maior de que nossa doutrina floresceu para bem junto com o Império felizmente iniciado é que, desde o reinado de Augusto nada de mau aconteceu, antes pelo contrário, tudo foi brilhante e glorioso, segundo as preces de todos.
9.Entre todos, somente Nero e Domiciano, persuadidos por alguns homens malévolos, quiseram caluniar nossa doutrina, e acontece que deles derivou, por costume irracional, a mentira caluniosa contra tais pessoas.
10.Mas teus pios pais corrigiram a ignorância daqueles repreendendo por escrito muitas vezes todos que se atreveram a criar novidades sobre os cristãos. Entre eles destaca-se teu avô Adriano, que escreveu a muitas e diferentes pessoas, inclusive ao procônsul Fundano, governador da Ásia. E também teu pai escreveu às cidades sobre não inventar nada acerca de nós, inclusive nos tempos em que tudo administravas junto com ele. Entre esses escritos acham-se os dirigidos aos habitantes de Larisa, aos tessalonicenses, aos atenienses e a todos os gregos.
11.E quanto a ti, que sobretudo nestes assuntos tens o mesmo parecer e até muito mais humano e filosófico, estamos persuadidos de que porás em efeito o que te pedimos."
12.Isto é o que se diz no tratado mencionado. E nos Extractos por ele escritos, o mesmo Meliton, ao começar, faz no prólogo um catálogo dos escritos admitidos do Antigo Testamento, catálogo que é necessário enumerar aqui. Escreve assim:
13."Meliton a seu irmão Onésimo: Saúde. Visto que muitas vezes, valendo-te de teu zelo pela doutrina, tens pedido para ti extractos da lei e dos profetas, sobre o Salvador e toda a nossa fé; mais os que propagavam novas crenças, não especificamente contra os cristãos. ainda, já que quiseste saber dos livros antigos com toda exactidão quantos são em número e qual é sua ordem, pus minha diligência em fazê-lo, sabendo de teu ardor pela fé e teu afã de saber sobre a doutrina, já que em tua luta pela salvação eterna e em tua ânsia por Deus, preferes isto mais do que tudo.
14.Assim pois, tendo subido ao Oriente e chegado até o lugar em que se proclamou e se realizou, informei-me com exactidão dos livros do Antigo Testamento. Ordenei-os e envio-os a ti. Seus nomes são: cinco de Moisés: Génesis, Êxodo, Números, Levítico, Deuteronômio; Jesus de Navé, Juízes, Rute; quatro dos Reis, dois dos Paralipômenos; Salmos de Davi; Provérbios de Salomão, ou também Sabedoria, Eclesiastes, Cantar dos Cantares, Jó; dos profetas, Isaías, Jeremias, os doze em um só livro, Daniel, Ezequiel; Esdras. Destes livros tirei os Extractos, que dividi em seis livros." E é isto que há de Meliton.
305 Um dos manuscritos dá o título Sobre a natureza do homem.
306 Neste ponto do manuscrito aparecem sete letras que não fazem sentido e são interpretadas de diferentes formas
por diversos estudiosos.
307 Pode tratar-se de uma repetição do título citado acima ou de uma obra distinta.
308 Procedimento contrário às ordem de Trajano.
309 Não se tem notícia de tais editos contra os cristãos, pode ser uma referência às decisões de Marco Aurélio contra
Boa Leitura!
1.Neste tempo floresciam também, muito destacados, Meliton, bispo da igreja de Sardes, e Apolinário, da de Hierápolis. Ambos, cada um em particular, dirigiram ao imperador romano já mencionado daquele tempo vários tratados apologéticos em favor da fé.
2.Deles chegaram até nós as seguintes obras. De Meliton, os dois livros Sobre a Páscoa e o livro Sobre a conduta e sobre os profetas; os tratados Sobre a Igreja e Sobre o domingo; ainda, Sobre a fé do homem305, Sobre a criação e Sobre a obediência dos sentidos à fé; além destes, os tratados Sobre a alma e o corpo...(.. .)306, Sobre o baptismo e sobre a verdade e sobre a fé e o nascimento de Cristo; um livro Sobre sua profecia; e Sobre a alma e o corpo307, Sobre a hospitalidade, A chave e os escritos Sobre o diabo e o Apocalipse de João e o livro Sobre Deus encarnado; e além de todos estes, um livrinho A Antonino.
3. Começando pois, o livro Sobre a Páscoa, indica o tempo em que o compôs, nestes termos: "Sob o procônsul da Ásia Servilio Paulo, tempo em que Sagaris sofreu martírio, houve em Laodicéia muitas disputas sobre a Páscoa, que caía precisamente naqueles dias, e escreveu-se isto."
4.Este tratado é mencionado por Clemente de Alexandria em seu Sobre a Páscoa, que ele mesmo diz ter composto por causa do escrito de Meliton. E no livrinho dirigido ao imperador conta Meliton que, sob este, deram-se contra nós coisas como estas:
5."Pois isto nunca havia ocorrido; agora persegue-se a linhagem dos adoradores de Deus308, afetados na Ásia por novos editos309. Efectivamente, os desavergonhados sicofantas e amantes do alheio, tomando pé nas prescrições, andam roubando abertamente, e expoliam de noite e de dia os que nada fizeram de mal."
6.E depois de outras coisas diz: "E se isto é feito porque tu o mandas, está bem-feito, porque nunca um imperador justo poderia querer algo injustamente, e nós suportamos com gosto a honra desta morte. Um só pedido, no entanto, te dirigimos: que tu mesmo examines primeiro os causadores de tal rivalidade e julgues com justiça se são dignos de morte e de castigo, ou de ficar salvos e tranquilos. Mas se não procedem de ti esta determinação e este novo edito - que nem sequer contra inimigos bárbaros seria conveniente -, com maior razão te pedimos que não nos abandones, indiferente a semelhante latrocínio público."
7. Ao dito acrescenta ainda isto: "Efectivamente, nossa filosofia alcançou sua plena maturidade entre bárbaros, mas havendo-se estendido também a teus povos sob o grande império de teu antepassado Augusto, converteu-se sobretudo para teu reinado em um bom augúrio, pois desde então a força dos romanos cresceu em grandeza e esplendor. Dela és tu o desejado herdeiro e seguirás sendo-o com teu filho, se proteges a filosofia que se criou com o império e começou quando Augusto e teus antepassados inclusive a honraram ao par com as outras religiões.
8.A prova maior de que nossa doutrina floresceu para bem junto com o Império felizmente iniciado é que, desde o reinado de Augusto nada de mau aconteceu, antes pelo contrário, tudo foi brilhante e glorioso, segundo as preces de todos.
9.Entre todos, somente Nero e Domiciano, persuadidos por alguns homens malévolos, quiseram caluniar nossa doutrina, e acontece que deles derivou, por costume irracional, a mentira caluniosa contra tais pessoas.
10.Mas teus pios pais corrigiram a ignorância daqueles repreendendo por escrito muitas vezes todos que se atreveram a criar novidades sobre os cristãos. Entre eles destaca-se teu avô Adriano, que escreveu a muitas e diferentes pessoas, inclusive ao procônsul Fundano, governador da Ásia. E também teu pai escreveu às cidades sobre não inventar nada acerca de nós, inclusive nos tempos em que tudo administravas junto com ele. Entre esses escritos acham-se os dirigidos aos habitantes de Larisa, aos tessalonicenses, aos atenienses e a todos os gregos.
11.E quanto a ti, que sobretudo nestes assuntos tens o mesmo parecer e até muito mais humano e filosófico, estamos persuadidos de que porás em efeito o que te pedimos."
12.Isto é o que se diz no tratado mencionado. E nos Extractos por ele escritos, o mesmo Meliton, ao começar, faz no prólogo um catálogo dos escritos admitidos do Antigo Testamento, catálogo que é necessário enumerar aqui. Escreve assim:
13."Meliton a seu irmão Onésimo: Saúde. Visto que muitas vezes, valendo-te de teu zelo pela doutrina, tens pedido para ti extractos da lei e dos profetas, sobre o Salvador e toda a nossa fé; mais os que propagavam novas crenças, não especificamente contra os cristãos. ainda, já que quiseste saber dos livros antigos com toda exactidão quantos são em número e qual é sua ordem, pus minha diligência em fazê-lo, sabendo de teu ardor pela fé e teu afã de saber sobre a doutrina, já que em tua luta pela salvação eterna e em tua ânsia por Deus, preferes isto mais do que tudo.
14.Assim pois, tendo subido ao Oriente e chegado até o lugar em que se proclamou e se realizou, informei-me com exactidão dos livros do Antigo Testamento. Ordenei-os e envio-os a ti. Seus nomes são: cinco de Moisés: Génesis, Êxodo, Números, Levítico, Deuteronômio; Jesus de Navé, Juízes, Rute; quatro dos Reis, dois dos Paralipômenos; Salmos de Davi; Provérbios de Salomão, ou também Sabedoria, Eclesiastes, Cantar dos Cantares, Jó; dos profetas, Isaías, Jeremias, os doze em um só livro, Daniel, Ezequiel; Esdras. Destes livros tirei os Extractos, que dividi em seis livros." E é isto que há de Meliton.
305 Um dos manuscritos dá o título Sobre a natureza do homem.
306 Neste ponto do manuscrito aparecem sete letras que não fazem sentido e são interpretadas de diferentes formas
por diversos estudiosos.
307 Pode tratar-se de uma repetição do título citado acima ou de uma obra distinta.
308 Procedimento contrário às ordem de Trajano.
309 Não se tem notícia de tais editos contra os cristãos, pode ser uma referência às decisões de Marco Aurélio contra
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
De Felipe e de Modesto
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1. Felipe, que pelas palavras de Dionísio conhecemos como bispo da igreja de Gortina, compôs também um importantíssimo tratado Contra Márcion. E o mesmo fizeram Irineu e Modesto304; este, inclusive melhor do que os outros, colocou à vista de todos o erro deste homem, assim como o de muitos, cujas obras se conservam ainda entre numerosos irmãos até hoje.
304 Nada se sabe sobre os tratados de Felipe e de Modesto Contra Márcion. Perderam-se assim como os de Justino.
Boa Leitura!
1. Felipe, que pelas palavras de Dionísio conhecemos como bispo da igreja de Gortina, compôs também um importantíssimo tratado Contra Márcion. E o mesmo fizeram Irineu e Modesto304; este, inclusive melhor do que os outros, colocou à vista de todos o erro deste homem, assim como o de muitos, cujas obras se conservam ainda entre numerosos irmãos até hoje.
304 Nada se sabe sobre os tratados de Felipe e de Modesto Contra Márcion. Perderam-se assim como os de Justino.
De Teófilo, bispo de Antioquia
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1. De Teófilo, que já mencionamos como bispo da igreja de Antioquia, possuímos os três livros elementares dirigidos A Autólico, e outro que tem por título Contra a heresia de Hermógenes, no qual utiliza testemunhos tirados do Apocalipse de João. Dele possuímos também alguns outros livros de catequese. Nesta época os hereges seguiam com o mesmo empenho corrompendo, como o joio, a limpa semente do ensinamento apostólico, e os pastores das igrejas de todo lugar os afugentavam do meio das ovelhas de Cristo como a bestas selvagens e rechaçavam-nos, ora por meio de advertências e exortações dirigidas aos irmãos, ora pondo-os em evidência com perguntas e refutações orais, cara a cara, e também corrigindo suas opiniões com argumentos bem precisos por meio de tratados escritos. Teófilo, assim como outros, lutou contra eles, segundo declara certo tratado seu nada vulgar Contra Márcion, tratado que, junto com outros de que falamos, conserva-se até hoje303. Teófilo foi sucedido por Maximino, sétimo da igreja de Antioquia a partir dos apóstolos.
303 Exceto pelos três livros A Autólico, todos seus livros se perderam.
Boa Leitura!
1. De Teófilo, que já mencionamos como bispo da igreja de Antioquia, possuímos os três livros elementares dirigidos A Autólico, e outro que tem por título Contra a heresia de Hermógenes, no qual utiliza testemunhos tirados do Apocalipse de João. Dele possuímos também alguns outros livros de catequese. Nesta época os hereges seguiam com o mesmo empenho corrompendo, como o joio, a limpa semente do ensinamento apostólico, e os pastores das igrejas de todo lugar os afugentavam do meio das ovelhas de Cristo como a bestas selvagens e rechaçavam-nos, ora por meio de advertências e exortações dirigidas aos irmãos, ora pondo-os em evidência com perguntas e refutações orais, cara a cara, e também corrigindo suas opiniões com argumentos bem precisos por meio de tratados escritos. Teófilo, assim como outros, lutou contra eles, segundo declara certo tratado seu nada vulgar Contra Márcion, tratado que, junto com outros de que falamos, conserva-se até hoje303. Teófilo foi sucedido por Maximino, sétimo da igreja de Antioquia a partir dos apóstolos.
303 Exceto pelos três livros A Autólico, todos seus livros se perderam.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
O que se recorda sobre Policarpo, discípulo dos apóstolos
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Nos tempos aludidos e estando Aniceto à cabeça da igreja de Roma, conta Irineu que Policarpo ainda vivia e que veio a Roma para conversar com Aniceto por causa de certa questão acerca do dia da Páscoa.
2.O mesmo escritor nos transmite outro relato acerca de Policarpo, que é necessário acrescentar ao que dele se disse. É o que segue:
TOMADO DO LIVRO III DOS DE IRINEU CONTRA AS HERESIAS.
3."E também Policarpo. Não somente foi instruído pelos apóstolos e conviveu com muitos que haviam visto o Senhor, mas também foi instituído bispo da Ásia pelos apóstolos, na igreja de Esmirna. Nós inclusive o vimos em nossa idade juvenil.
4.Já que viveu muitos anos e morreu muito velho, depois de dar glorioso e esplêndido testemunho. Sempre ensinou o que havia aprendido dos apóstolos, que é também o que a Igreja transmite e o único que é verdade.
5.Disto dão testemunho todas as igrejas da Ásia e os que até hoje sucederam a Policarpo, que é um testemunho da verdade muito mais digno de fé e muito mais seguro que Valentim, que Márcion e que o resto, de juízo corrompido. E estando de passagem por Roma nos tempos de Aniceto, reconduziu muitos dos hereges acima mencionados à igreja de Deus, pregando-lhes que única e exclusivamente havia recebido dos apóstolos esta verdade: o que transmite a Igreja.
6.E há quem o tenham ouvido dizer que João, o discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso e tendo visto Cerinto nos banhos, saltou para fora das termas sem ter-se banhado e disse: "Fujamos, não ocorra que também as termas venham abaixo por estar dentro Cerinto, o inimigo da verdade277."
7.E o mesmo Policarpo, quando uma vez Márcion fez-se encontrar e lhe disse: "Reconhece-nos", respondeu-lhe: "Reconheço-te. Reconheço o primogênito de Satanás." Era tal a cautela que tinham os apóstolos e seus discípulos para não comunicar-se sequer por palavra com nenhum falsificador da verdade, que o próprio Paulo disse: Ao herege, depois de primeira e segunda advertência, rechaçao, pois sabes que este está perdido e peca, condenando a si mesmo278."
8."Há também uma carta de Policarpo, escrita aos filipenses, importantíssima, pela qual podem conhecer a índole de sua fé e sua mensagem da verdade aqueles que o queiram e que se preocupam com sua própria salvação."
9.Isto disse Irineu. Quanto a Policarpo, na mencionada carta sua aos filipenses, conservada até o presente, faz uso de alguns testemunhos tomados da primeira carta de Pedro.
10.A Antonino, o chamado Pio, depois de cumpridos seus vinte e dois anos de governo, sucedeu seu filho Marco Aurélio Vero, também chamado Antonino, junto com seu irmão Lúcio.
277 Vide III:XXVIII:6.
278 Tt 3:10-11.
Boa Leitura!
1.Nos tempos aludidos e estando Aniceto à cabeça da igreja de Roma, conta Irineu que Policarpo ainda vivia e que veio a Roma para conversar com Aniceto por causa de certa questão acerca do dia da Páscoa.
2.O mesmo escritor nos transmite outro relato acerca de Policarpo, que é necessário acrescentar ao que dele se disse. É o que segue:
TOMADO DO LIVRO III DOS DE IRINEU CONTRA AS HERESIAS.
3."E também Policarpo. Não somente foi instruído pelos apóstolos e conviveu com muitos que haviam visto o Senhor, mas também foi instituído bispo da Ásia pelos apóstolos, na igreja de Esmirna. Nós inclusive o vimos em nossa idade juvenil.
4.Já que viveu muitos anos e morreu muito velho, depois de dar glorioso e esplêndido testemunho. Sempre ensinou o que havia aprendido dos apóstolos, que é também o que a Igreja transmite e o único que é verdade.
5.Disto dão testemunho todas as igrejas da Ásia e os que até hoje sucederam a Policarpo, que é um testemunho da verdade muito mais digno de fé e muito mais seguro que Valentim, que Márcion e que o resto, de juízo corrompido. E estando de passagem por Roma nos tempos de Aniceto, reconduziu muitos dos hereges acima mencionados à igreja de Deus, pregando-lhes que única e exclusivamente havia recebido dos apóstolos esta verdade: o que transmite a Igreja.
6.E há quem o tenham ouvido dizer que João, o discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso e tendo visto Cerinto nos banhos, saltou para fora das termas sem ter-se banhado e disse: "Fujamos, não ocorra que também as termas venham abaixo por estar dentro Cerinto, o inimigo da verdade277."
7.E o mesmo Policarpo, quando uma vez Márcion fez-se encontrar e lhe disse: "Reconhece-nos", respondeu-lhe: "Reconheço-te. Reconheço o primogênito de Satanás." Era tal a cautela que tinham os apóstolos e seus discípulos para não comunicar-se sequer por palavra com nenhum falsificador da verdade, que o próprio Paulo disse: Ao herege, depois de primeira e segunda advertência, rechaçao, pois sabes que este está perdido e peca, condenando a si mesmo278."
8."Há também uma carta de Policarpo, escrita aos filipenses, importantíssima, pela qual podem conhecer a índole de sua fé e sua mensagem da verdade aqueles que o queiram e que se preocupam com sua própria salvação."
9.Isto disse Irineu. Quanto a Policarpo, na mencionada carta sua aos filipenses, conservada até o presente, faz uso de alguns testemunhos tomados da primeira carta de Pedro.
10.A Antonino, o chamado Pio, depois de cumpridos seus vinte e dois anos de governo, sucedeu seu filho Marco Aurélio Vero, também chamado Antonino, junto com seu irmão Lúcio.
277 Vide III:XXVIII:6.
278 Tt 3:10-11.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Quem foram os escritores eclesiásticos nos tempos de Adriano
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Entre estes destacava-se Hegesipo. Dele já utilizamos anteriormente numerosas citações, com o fim de estabelecer, tomando de sua tradição, alguns fatos dos tempos dos apóstolos.
2.Efectivamente, em cinco livros comentou a tradição limpa de erro da pregação apostólica, com um estilo muito simples. O tempo em que se deu a conhecer é indicado por ele mesmo ao escrever assim dos que desde o princípio instalaram os ídolos: "Erigiam-lhes cenotáfios e templos, como até hoje. Deles é também Antino, escravo do imperador Adriano. Ainda que contemporâneo nosso, em sua honra celebram-se os jogos Antinoeus. Adriano inclusive fundou uma cidade com o nome de Antinoo e criou profetas."
3.Também por este tempo, Justino, sincero amante da verdadeira filosofia, continuava ainda ocupado em exercitar-se nas doutrinas dos gregos. Ele mesmo indica este tempo ao escrever sua Apologia dirigida a Antonino: "Não creio que esteja fora de lugar mencionar aqui também Antinoo, que viveu em nossos dias e a quem todos se sentiam constrangidos a prestar culto como a um deus, por medo, apesar de saber quem era e de onde procedia."
4.E o mesmo Justino acrescenta o seguinte, ao mencionar a guerra de então contra os judeus: "E, de fato, na guerra judia de agora, Barkokebas, o líder da rebelião dos judeus, mandava que somente os cristãos fossem conduzidos a terríveis suplícios se não renegassem e blasfemassem contra Jesus o Cristo."
5. Na mesma obra demonstra que sua conversão da filosofia grega à religião não se fez sem razão, mas com juízo; escreve o seguinte: "porque também eu mesmo, que me comprazia nos ensinamentos de Platão, ao ouvir as calúnias contra os cristãos e vê-los irem intrépidos para a morte e para tudo que é terrível, comecei a pensar que não era possível que aqueles homens vivessem na maldade e no amor aos prazeres. Pois, que homem amante do prazer ou incontinente ou que pensa que comer carne humana é bom poderia abraçar com alegria a morte se com ela se vê privado do objeto de seus desejos? Não tentaria por todos os meios seguir vivendo sempre sua vida daqui e ocultar-se dos governantes, em vez de delatar-se a si mesmo para ser morto?"
6.O mesmo escritor conta ainda que Adriano recebeu de Serenio Graniano, lúcido governador, uma carta em favor dos cristãos, dizendo que não era justo, sem ter havido acusação nenhuma, condena-los à morte sem julgamento, apenas para dar o gosto aos gritos do povo, e que havia respondido a Minucio Fundano, procônsul da Ásia, ordenando-lhe que ninguém julgasse sem denúncia e sem acusação razoável.
7.Desta carta Justino oferece uma cópia, conservando a língua latina, tal como estava, e antepondo o seguinte: "Poderíamos também, pelo conteúdo de uma carta do máximo e ilustríssimo imperador Adriano, vosso pai, exigir que mandeis celebrar os julgamentos segundo nossa demanda. Mas isto não pedimos por ter sido ordenado por Adriano, mas por estarmos convencidos de que nossa reclamação é justa. No entanto, também colocamos atrás a cópia da carta de Adriano, para que saibas que também nisto dizemos a verdade. E a que segue."
8. E em continuação ao dito, o mencionado autor põe a própria cópia latina, que nós, no entanto, traduzimos ao grego, como pudemos, e diz assim:
Boa Leitura!
1.Entre estes destacava-se Hegesipo. Dele já utilizamos anteriormente numerosas citações, com o fim de estabelecer, tomando de sua tradição, alguns fatos dos tempos dos apóstolos.
2.Efectivamente, em cinco livros comentou a tradição limpa de erro da pregação apostólica, com um estilo muito simples. O tempo em que se deu a conhecer é indicado por ele mesmo ao escrever assim dos que desde o princípio instalaram os ídolos: "Erigiam-lhes cenotáfios e templos, como até hoje. Deles é também Antino, escravo do imperador Adriano. Ainda que contemporâneo nosso, em sua honra celebram-se os jogos Antinoeus. Adriano inclusive fundou uma cidade com o nome de Antinoo e criou profetas."
3.Também por este tempo, Justino, sincero amante da verdadeira filosofia, continuava ainda ocupado em exercitar-se nas doutrinas dos gregos. Ele mesmo indica este tempo ao escrever sua Apologia dirigida a Antonino: "Não creio que esteja fora de lugar mencionar aqui também Antinoo, que viveu em nossos dias e a quem todos se sentiam constrangidos a prestar culto como a um deus, por medo, apesar de saber quem era e de onde procedia."
4.E o mesmo Justino acrescenta o seguinte, ao mencionar a guerra de então contra os judeus: "E, de fato, na guerra judia de agora, Barkokebas, o líder da rebelião dos judeus, mandava que somente os cristãos fossem conduzidos a terríveis suplícios se não renegassem e blasfemassem contra Jesus o Cristo."
5. Na mesma obra demonstra que sua conversão da filosofia grega à religião não se fez sem razão, mas com juízo; escreve o seguinte: "porque também eu mesmo, que me comprazia nos ensinamentos de Platão, ao ouvir as calúnias contra os cristãos e vê-los irem intrépidos para a morte e para tudo que é terrível, comecei a pensar que não era possível que aqueles homens vivessem na maldade e no amor aos prazeres. Pois, que homem amante do prazer ou incontinente ou que pensa que comer carne humana é bom poderia abraçar com alegria a morte se com ela se vê privado do objeto de seus desejos? Não tentaria por todos os meios seguir vivendo sempre sua vida daqui e ocultar-se dos governantes, em vez de delatar-se a si mesmo para ser morto?"
6.O mesmo escritor conta ainda que Adriano recebeu de Serenio Graniano, lúcido governador, uma carta em favor dos cristãos, dizendo que não era justo, sem ter havido acusação nenhuma, condena-los à morte sem julgamento, apenas para dar o gosto aos gritos do povo, e que havia respondido a Minucio Fundano, procônsul da Ásia, ordenando-lhe que ninguém julgasse sem denúncia e sem acusação razoável.
7.Desta carta Justino oferece uma cópia, conservando a língua latina, tal como estava, e antepondo o seguinte: "Poderíamos também, pelo conteúdo de uma carta do máximo e ilustríssimo imperador Adriano, vosso pai, exigir que mandeis celebrar os julgamentos segundo nossa demanda. Mas isto não pedimos por ter sido ordenado por Adriano, mas por estarmos convencidos de que nossa reclamação é justa. No entanto, também colocamos atrás a cópia da carta de Adriano, para que saibas que também nisto dizemos a verdade. E a que segue."
8. E em continuação ao dito, o mencionado autor põe a própria cópia latina, que nós, no entanto, traduzimos ao grego, como pudemos, e diz assim:
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Os que saíram em defesa da fé nos tempos de Adriano
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Depois de Trajano reger o império durante dezanove anos e seis meses, foi sucedido no comando por Elio Adriano. A este Codratos entregou um tratado que lhe havia redigido: uma Apologia composta em defesa de nossa religião, já que, efectivamente, alguns homens malvados tratavam de importunar os nossos. Ainda hoje conserva-se nas mãos de muitos de nossos irmãos; nós também possuímos a obra. Nela podemos ver claras provas da inteligência e rectidão apostólica deste homem.
2.Ele mesmo deixa entrever sua antiguidade nisto que nos conta, em suas próprias palavras: "Mas as obras de nosso Salvador estavam sempre presentes, porque eram verdadeiras: os que haviam sido curados, os ressuscitados dentre os mortos, os quais não foram vistos apenas no instante de serem curados e ressuscitados, mas também estiveram sempre presentes, e não apenas enquanto vivia o Salvador, mas também depois de Ele morrer, todos viveram tempo suficiente, de forma que alguns deles chegaram mesmo aos nossos tempos."
3. Assim era Codratos. Mas também Aristides, homem de fé entregue a nossa religião deixou, assim como Codratos, uma Apologia em favor da fé, que havia dirigido a Adriano. Também a obra deste escritor conservou-se até nossos dias em muitos lugares.
Boa Leitura!
1.Depois de Trajano reger o império durante dezanove anos e seis meses, foi sucedido no comando por Elio Adriano. A este Codratos entregou um tratado que lhe havia redigido: uma Apologia composta em defesa de nossa religião, já que, efectivamente, alguns homens malvados tratavam de importunar os nossos. Ainda hoje conserva-se nas mãos de muitos de nossos irmãos; nós também possuímos a obra. Nela podemos ver claras provas da inteligência e rectidão apostólica deste homem.
2.Ele mesmo deixa entrever sua antiguidade nisto que nos conta, em suas próprias palavras: "Mas as obras de nosso Salvador estavam sempre presentes, porque eram verdadeiras: os que haviam sido curados, os ressuscitados dentre os mortos, os quais não foram vistos apenas no instante de serem curados e ressuscitados, mas também estiveram sempre presentes, e não apenas enquanto vivia o Salvador, mas também depois de Ele morrer, todos viveram tempo suficiente, de forma que alguns deles chegaram mesmo aos nossos tempos."
3. Assim era Codratos. Mas também Aristides, homem de fé entregue a nossa religião deixou, assim como Codratos, uma Apologia em favor da fé, que havia dirigido a Adriano. Também a obra deste escritor conservou-se até nossos dias em muitos lugares.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Dos escritos de Papias
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1. Diz-se que são cinco os escritos de Papias, sob o título de Explicações das palavras do Senhor. Irineu os menciona como os únicos escritos de Papias; assim diz: "Isto também atesta por escrito Papias, que foi ouvinte de João, companheiro de Policarpo e varão dos antigos, no quarto livro dos que escreveu, porque efectivamente tem cinco livros escritos."
2.Isto é o que diz Irineu. O próprio Papias no entanto, segundo o prólogo de seus tratados, não se apresenta de modo algum como ouvinte e testemunha ocular dos sagrados apóstolos, mas ensina-nos que recebeu o referente à fé da boca de outros que os conheceram, estas são suas palavras:
3."Não vacilarei em apresentar-te ordenadamente com as interpretações tudo o que um dia aprendi muito bem dos presbíteros e que recordo bem, seguro que estou de sua verdade. Porque eu não me comprazia como outros com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade; nem tampouco com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que trazem na memória os (mandamentos) que receberam pela fé da parte do Senhor e nascem da própria verdade.
4.E se por acaso chegava alguém que também havia seguido os presbíteros, eu procurava discernir as palavras dos presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Felipe, ou Tomás, ou Tiago, ou João, ou Mateus ou qualquer outro dos discípulos do Senhor, porque eu pensava que não aproveitaria tanto o que tirasse dos livros como o que provêm de uma voz viva e durável."
5. Aqui seria bom fazer notar também que ele enumera duas vezes o nome de João. O primeiro coloca na lista com Pedro, Tiago, Mateus e os demais apóstolos, sendo evidente que se refere ao evangelista; já ao outro João, depois de cortar o discurso, coloca-o com outros, fora do número dos apóstolos, antepondo Aristion e chamando-o claramente de presbítero.
6.De forma que também isto demonstra que é verdade a história dos que dizem que na Ásia houve dois com este mesmo nome, e em Éfeso dois sepulcros, dos quais ainda hoje se afirma que são, um e outro, de João. É necessário prestar atenção a estes fatos, porque é provável que fosse o segundo - se não se prefere o primeiro - o que viu a Revelação (= Apocalipse) que corre sob o nome de João.
7.Agora bem, Papias, de quem estamos falando, confessa que recebeu as palavras dos apóstolos de discípulos destes, enquanto que de Aristion e de João o Presbítero ele diz ter sido ouvinte directo. Efectivamente menciona-os pelo nome várias vezes em seus escritos e compila suas tradições.
8.E não se diga que por nossa parte é inútil o dito. Mas é justo adicionar às palavras de Papias já citadas outros ditos seus com os quais se refere a algumas coisas estranhas e outros detalhes que, segundo ele, chegaram-lhe pela tradição.
9.Pois bem, já foi explicado mais acima que o apóstolo Felipe morou em Hierápolis com suas filhas, mas agora há que se assinalar como Papias, que viveu nesse mesmo tempo, faz menção de haver recebido um relato maravilhoso da boca das filhas de Felipe. Narra efectivamente a ressurreição de um morto ocorrida em seu tempo e, como se fosse pouco, outro fato portentoso referente a Justo, apelidado Barsabás, pois aconteceu que este bebeu uma poção mortal sem que, pela graça do Senhor, sofresse qualquer dano.
10.Depois da ascensão do Salvador, os sagrados apóstolos puseram este Justo junto com Matias e oraram sobre eles para que a sorte completasse seu número em lugar do traidor Judas; conta-o o livro dos Actos da seguinte maneira: E puseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias. E orando sobre eles disseram261.
11.O próprio Papias conta também outras coisas como tendo chegado a ele por tradição não escrita, algumas estranhas parábolas do Salvador e de sua doutrina, e algumas outras coisas ainda mais fabulosas.
12.Entre elas diz que, depois da ressurreição dentre os mortos, haverá um milénio, e que o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente sobre esta terra. Eu creio que Papias supõe tudo isto por haver derivado das explicações dos apóstolos, não percebendo que estes haviam-no dito figuradamente e de modo simbólico.
13.E aparece como homem de muito escassa inteligência, segundo se pode supor por seus livros. Mesmo assim, ele foi o culpado de que tantos escritores eclesiásticos depois dele tenham abraçado a mesma opinião que ele, apoiando-se na antiguidade de tal varão, como realmente faz Irineu e qualquer outro que manifeste professar ideias parecidas.
14.Em sua própria obra Papias transmite ainda outras interpretações das palavras do Senhor recebidas de Aristion, mencionado acima, assim como também outras tradições de João o Presbítero. A elas remetemos a quantos queiram instruir-se. Agora nos vemos obrigados a acrescentar às suas palavras anteriormente citadas uma tradição acerca de Marcos, o que escreveu o Evangelho, que vem exposta nos termos seguintes:
15."E o presbítero dizia isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia dito e feito. Porque ele não tinha ouvido o Senhor nem o havia seguido, mas, como disse, a Pedro mais tarde, o qual transmitia seus ensinamentos segundo as necessidades e não como quem faz uma composição das palavras do Senhor, mas de tal forma que Marcos em nada se enganou ao escrever algumas coisas tal como as recordava.
E pôs toda sua preocupação em uma só coisa: não descuidar nada de quanto havia ouvido nem enganar-se nisto o mínimo."
16.Isto é o que conta Papias sobre Marcos. Referente a Mateus, diz o seguinte: "Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada um as traduzia como melhor podia."
17.O mesmo escritor utiliza testemunhos tomados da primeira carta de João, e igualmente da de Pedro, e expõe também outro relato de uma mulher acusada de muitos pecados ante o Senhor, que está contido no Evangelho dos hebreus262. Que conste também isto, além do que já havia exposto.
261 Act 1:23-24.
262 Eusébio apenas assinala que o relato se encontra em Papias e no Evangelho dos hebreus. É muito possível que se trate
do mesmo que consta em Jo 7:53-8:11.
Boa Leitura!
1. Diz-se que são cinco os escritos de Papias, sob o título de Explicações das palavras do Senhor. Irineu os menciona como os únicos escritos de Papias; assim diz: "Isto também atesta por escrito Papias, que foi ouvinte de João, companheiro de Policarpo e varão dos antigos, no quarto livro dos que escreveu, porque efectivamente tem cinco livros escritos."
2.Isto é o que diz Irineu. O próprio Papias no entanto, segundo o prólogo de seus tratados, não se apresenta de modo algum como ouvinte e testemunha ocular dos sagrados apóstolos, mas ensina-nos que recebeu o referente à fé da boca de outros que os conheceram, estas são suas palavras:
3."Não vacilarei em apresentar-te ordenadamente com as interpretações tudo o que um dia aprendi muito bem dos presbíteros e que recordo bem, seguro que estou de sua verdade. Porque eu não me comprazia como outros com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade; nem tampouco com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que trazem na memória os (mandamentos) que receberam pela fé da parte do Senhor e nascem da própria verdade.
4.E se por acaso chegava alguém que também havia seguido os presbíteros, eu procurava discernir as palavras dos presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Felipe, ou Tomás, ou Tiago, ou João, ou Mateus ou qualquer outro dos discípulos do Senhor, porque eu pensava que não aproveitaria tanto o que tirasse dos livros como o que provêm de uma voz viva e durável."
5. Aqui seria bom fazer notar também que ele enumera duas vezes o nome de João. O primeiro coloca na lista com Pedro, Tiago, Mateus e os demais apóstolos, sendo evidente que se refere ao evangelista; já ao outro João, depois de cortar o discurso, coloca-o com outros, fora do número dos apóstolos, antepondo Aristion e chamando-o claramente de presbítero.
6.De forma que também isto demonstra que é verdade a história dos que dizem que na Ásia houve dois com este mesmo nome, e em Éfeso dois sepulcros, dos quais ainda hoje se afirma que são, um e outro, de João. É necessário prestar atenção a estes fatos, porque é provável que fosse o segundo - se não se prefere o primeiro - o que viu a Revelação (= Apocalipse) que corre sob o nome de João.
7.Agora bem, Papias, de quem estamos falando, confessa que recebeu as palavras dos apóstolos de discípulos destes, enquanto que de Aristion e de João o Presbítero ele diz ter sido ouvinte directo. Efectivamente menciona-os pelo nome várias vezes em seus escritos e compila suas tradições.
8.E não se diga que por nossa parte é inútil o dito. Mas é justo adicionar às palavras de Papias já citadas outros ditos seus com os quais se refere a algumas coisas estranhas e outros detalhes que, segundo ele, chegaram-lhe pela tradição.
9.Pois bem, já foi explicado mais acima que o apóstolo Felipe morou em Hierápolis com suas filhas, mas agora há que se assinalar como Papias, que viveu nesse mesmo tempo, faz menção de haver recebido um relato maravilhoso da boca das filhas de Felipe. Narra efectivamente a ressurreição de um morto ocorrida em seu tempo e, como se fosse pouco, outro fato portentoso referente a Justo, apelidado Barsabás, pois aconteceu que este bebeu uma poção mortal sem que, pela graça do Senhor, sofresse qualquer dano.
10.Depois da ascensão do Salvador, os sagrados apóstolos puseram este Justo junto com Matias e oraram sobre eles para que a sorte completasse seu número em lugar do traidor Judas; conta-o o livro dos Actos da seguinte maneira: E puseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias. E orando sobre eles disseram261.
11.O próprio Papias conta também outras coisas como tendo chegado a ele por tradição não escrita, algumas estranhas parábolas do Salvador e de sua doutrina, e algumas outras coisas ainda mais fabulosas.
12.Entre elas diz que, depois da ressurreição dentre os mortos, haverá um milénio, e que o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente sobre esta terra. Eu creio que Papias supõe tudo isto por haver derivado das explicações dos apóstolos, não percebendo que estes haviam-no dito figuradamente e de modo simbólico.
13.E aparece como homem de muito escassa inteligência, segundo se pode supor por seus livros. Mesmo assim, ele foi o culpado de que tantos escritores eclesiásticos depois dele tenham abraçado a mesma opinião que ele, apoiando-se na antiguidade de tal varão, como realmente faz Irineu e qualquer outro que manifeste professar ideias parecidas.
14.Em sua própria obra Papias transmite ainda outras interpretações das palavras do Senhor recebidas de Aristion, mencionado acima, assim como também outras tradições de João o Presbítero. A elas remetemos a quantos queiram instruir-se. Agora nos vemos obrigados a acrescentar às suas palavras anteriormente citadas uma tradição acerca de Marcos, o que escreveu o Evangelho, que vem exposta nos termos seguintes:
15."E o presbítero dizia isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia dito e feito. Porque ele não tinha ouvido o Senhor nem o havia seguido, mas, como disse, a Pedro mais tarde, o qual transmitia seus ensinamentos segundo as necessidades e não como quem faz uma composição das palavras do Senhor, mas de tal forma que Marcos em nada se enganou ao escrever algumas coisas tal como as recordava.
E pôs toda sua preocupação em uma só coisa: não descuidar nada de quanto havia ouvido nem enganar-se nisto o mínimo."
16.Isto é o que conta Papias sobre Marcos. Referente a Mateus, diz o seguinte: "Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada um as traduzia como melhor podia."
17.O mesmo escritor utiliza testemunhos tomados da primeira carta de João, e igualmente da de Pedro, e expõe também outro relato de uma mulher acusada de muitos pecados ante o Senhor, que está contido no Evangelho dos hebreus262. Que conste também isto, além do que já havia exposto.
261 Act 1:23-24.
262 Eusébio apenas assinala que o relato se encontra em Papias e no Evangelho dos hebreus. É muito possível que se trate
do mesmo que consta em Jo 7:53-8:11.
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