História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1. Por este tempo do reinado de Cômodo, nossa situação mudou para uma maior suavidade. A paz, com ajuda da graça divina, abarcava todas as igrejas de toda a terra habitada. Foi também quando a doutrina salvadora ia pouco a pouco ganhando todas as almas de toda classe de homens para o culto piedoso do Deus de todas as coisas, tanto que inclusive muitos dos que em Roma sobressaíam por sua riqueza e linhagem marchavam ao encontro de sua salvação com toda sua casa e toda sua família.
2.Mas o demônio não podia suportar isto, inimigo do bem e invejoso como é por natureza, e em conseqüência preparava-se novamente para o combate enquanto maquinava variados atentados contra nós. Na cidade de Roma conduziu Apolônio ante os tribunais, varão famoso entre os fiéis de então por sua educação e filosofia, e para acusá-lo levantou um ministro seu qualquer, gente apropriada para estas tarefas.
3.Mas em má hora o desgraçado introduziu a causa, porque segundo um decreto imperial384, não se permitia que vivessem os acusadores de tais homens, e na hora foram-lhe quebradas as pernas, pois tal sentença foi formulada contra ele pelo juiz Perennio385.
4.O mártir, por sua parte, amado de Deus, apesar de o juiz rogar-lhe com muita insistência e pedirlhe que desse razão ante o senado, apresentou diante de todos uma eloqüente apologia da fé pela qual dava testemunho, e morreu decapitado, como por decreto do senado, já que uma antiga lei ordenava entre eles que não se deixasse ir os que comparecessem uma vez ante o tribunal e não mudassem em absoluto de propósito.
5.Assim pois, quem deseje ler as palavras de Apolônio ante o juiz e as respostas que deu ao interrogatório de Perennio, assim como sua apologia dirigida ao senado, inteira, poderá vê-lo na relação escrita dos antigos martírios que compilamos.
384 Eusébio deve basear-se em algum presumido decreto imperial que tomou por autêntico.
385 Tigidius Perennis, prefeito do pretório entre 183 e 185.
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sábado, 17 de setembro de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
De como os mártires, amados de Deus, acolhiam e cuidavam dos que haviam falhado na perseguição
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Isto foi o que, sob o mencionado imperador, aconteceu às igrejas de Cristo, e partindo disto pode-se também conjecturar num cálculo razoável o que ocorreu nas demais províncias; será conveniente juntar ao que foi dito mais algumas passagens do mesmo documento, nas quais se descreve a suavidade e humanidade dos citados mártires com estas mesmas palavras:
2."Os quais, no zelo e imitação de Cristo, que subsistindo em forma de Deus não considerou usurpação o ser igual a Deus335, chegaram a tão alto grau que, apesar de sua glória e de terem dado testemunho, não uma vez ou duas, mas muitas vezes mais, e de terem sido retirados das feras e de estarem cobertos por toda parte de queimaduras, equimoses e feridas, nem eles próprios se proclamaram mártires nem a nós mesmos permitiram que os chamássemos por este nome; mas antes, se algum de nós por carta ou por palavra se dirigia a eles como a mártires, repreendiam-no severamente.
3.E compraziam-se em ceder o título do martírio a Cristo, o fiel e verdadeiro mártir, primogénito dos mortos e autor da vida de Deus, e recordando os mártires que já haviam partido, inclusive diziam: 'Aqueles sim é que são mártires, posto que Cristo teve por bem levá-los consigo em sua confissão e selou seus martírios com suas mortes; nós porém somos uns confessores medianos e sem expressão'; e com lágrimas exortavam os irmãos pedindo-lhes que se fizessem assíduas orações para lograr sua consumação.
4.E com seu trabalho demonstravam a força de seu martírio, dirigindo a palavra com inteira liberdade aos pagãos, e manifestavam sua nobreza mediante sua paciência, sua integridade e sua impavidez; mas o título de mártires dado pelos irmãos eles rechaçavam, repletos do temor de Deus."
5.E logo, pouco mais adiante, dizem: "Humilhavam-se sob a mão poderosa que agora os tem grandemente exaltados. E então defendiam a todos e não condenavam a ninguém, desatavam a todos e não atavam ninguém, e como Estevão, o mártir perfeito, rogavam pelos que lhes infligiam os tormentos: Senhor, não lhes imputes este pecado. E se rogava pelos que o apedrejavam, quanto mais não faria pelos irmãos?"
6. E novamente, depois de outros detalhes, dizem: "Porque este foi para eles seu maior combate contra ele336, pela verdade de seu amor, para que a besta se engasgasse e vomitasse vivos os que primeiro pensava ter engolido. Efectivamente, não se mostraram arrogantes frente aos caídos, mas sim, com entranhas maternas, acudiam em socorro dos necessitados com sua própria abundância e, derramando muitas lágrimas por eles ao Pai, pediam vida e para eles a davam.
7.Também a repartiam aos demais quando, vencedores em tudo, marchavam para Deus. Sempre amaram a paz, e em paz emigraram para Deus recomendando-nos a paz, não deixando para trás trabalhos para a mãe337 nem revolta e guerra para os irmãos, mas alegria, paz, concórdia e amor."
8.O dito sobre o amor daqueles bem-aventurados para com os irmãos caídos poderá ser útil, por causa da atitude desumana e inclemente daqueles que, depois disto, tornaram-se implacáveis nos membros de Cristo.
335 Fp 2:6.
336 Devido ao corte da citação, não aparece a quem se refere, mas trata-se sem dúvida do demónio.
Boa Leitura!
1.Isto foi o que, sob o mencionado imperador, aconteceu às igrejas de Cristo, e partindo disto pode-se também conjecturar num cálculo razoável o que ocorreu nas demais províncias; será conveniente juntar ao que foi dito mais algumas passagens do mesmo documento, nas quais se descreve a suavidade e humanidade dos citados mártires com estas mesmas palavras:
2."Os quais, no zelo e imitação de Cristo, que subsistindo em forma de Deus não considerou usurpação o ser igual a Deus335, chegaram a tão alto grau que, apesar de sua glória e de terem dado testemunho, não uma vez ou duas, mas muitas vezes mais, e de terem sido retirados das feras e de estarem cobertos por toda parte de queimaduras, equimoses e feridas, nem eles próprios se proclamaram mártires nem a nós mesmos permitiram que os chamássemos por este nome; mas antes, se algum de nós por carta ou por palavra se dirigia a eles como a mártires, repreendiam-no severamente.
3.E compraziam-se em ceder o título do martírio a Cristo, o fiel e verdadeiro mártir, primogénito dos mortos e autor da vida de Deus, e recordando os mártires que já haviam partido, inclusive diziam: 'Aqueles sim é que são mártires, posto que Cristo teve por bem levá-los consigo em sua confissão e selou seus martírios com suas mortes; nós porém somos uns confessores medianos e sem expressão'; e com lágrimas exortavam os irmãos pedindo-lhes que se fizessem assíduas orações para lograr sua consumação.
4.E com seu trabalho demonstravam a força de seu martírio, dirigindo a palavra com inteira liberdade aos pagãos, e manifestavam sua nobreza mediante sua paciência, sua integridade e sua impavidez; mas o título de mártires dado pelos irmãos eles rechaçavam, repletos do temor de Deus."
5.E logo, pouco mais adiante, dizem: "Humilhavam-se sob a mão poderosa que agora os tem grandemente exaltados. E então defendiam a todos e não condenavam a ninguém, desatavam a todos e não atavam ninguém, e como Estevão, o mártir perfeito, rogavam pelos que lhes infligiam os tormentos: Senhor, não lhes imputes este pecado. E se rogava pelos que o apedrejavam, quanto mais não faria pelos irmãos?"
6. E novamente, depois de outros detalhes, dizem: "Porque este foi para eles seu maior combate contra ele336, pela verdade de seu amor, para que a besta se engasgasse e vomitasse vivos os que primeiro pensava ter engolido. Efectivamente, não se mostraram arrogantes frente aos caídos, mas sim, com entranhas maternas, acudiam em socorro dos necessitados com sua própria abundância e, derramando muitas lágrimas por eles ao Pai, pediam vida e para eles a davam.
7.Também a repartiam aos demais quando, vencedores em tudo, marchavam para Deus. Sempre amaram a paz, e em paz emigraram para Deus recomendando-nos a paz, não deixando para trás trabalhos para a mãe337 nem revolta e guerra para os irmãos, mas alegria, paz, concórdia e amor."
8.O dito sobre o amor daqueles bem-aventurados para com os irmãos caídos poderá ser útil, por causa da atitude desumana e inclemente daqueles que, depois disto, tornaram-se implacáveis nos membros de Cristo.
335 Fp 2:6.
336 Devido ao corte da citação, não aparece a quem se refere, mas trata-se sem dúvida do demónio.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Quantos foram e de que modo lutaram nos tempos de Vero pela religião na Gália II
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
32.Foi então que teve lugar uma grande dispensação de Deus e se manifestou a imensa misericórdia de Jesus, como raramente havia ocorrido na comunidade dos irmãos, mas muito de acordo com o modo de Cristo.
33.Efectivamente, os que haviam renegado nas primeiras detenções foram também encarcerados e compartilhavam dos mesmos horrores, já que nesta ocasião de nada lhes serviu sua apostasia. Os que confessavam o que na verdade eram, eram encerrados como cristãos, sem nenhuma outra acusação; em compensação, os outros eram presos como homicidas e impuros e castigavam-nos em dobro do que aos demais323.
34.E assim os primeiros eram aliviados pela alegria do martírio, pela esperança do prometido, pelo amor de Cristo e o Espírito do Pai, enquanto que para estes outros, a consciência os atormentava grandemente, ao ponto de que, ao morrerem, podia-se reconhecer seu aspecto entre todos.
35.De fato, enquanto uns avançavam prazerosamente, com um misto de glória e graça abundantes em seus rostos, de modo que até suas correntes os cingiam como esplêndido adorno, como uma noiva ataviada com multicoloridos fios de ouro, e ao mesmo tempo espalhavam o suave odor de Cristo a ponto de fazer os outros pensarem que tinham-se ungido com perfumes mundanos, os outros, pelo contrário, faziam-no sombrios, cabisbaixos, disformes e cheios de rancor, e como se fosse pouco, até os pagãos tachavam-nos de ignóbeis e covardes: levavam a acusação de homicidas além de terem perdido seu nome venerabilíssimo, glorioso e vivificador. Quando os demais viram isto, reafirmaram se, e os que iam sendo detidos confessavam já sem vacilação e sem ter um único pensamento de cálculo diabólico."
36.Depois de juntar a isto algumas coisas intermediárias continuam: "Além disto, os géneros de morte dos mártires eram muito variados, pois com flores de toda espécie trançavam uma só coroa para oferece-la ao Pai, e assim era necessário que aqueles generosos atletas, depois de ter sustentado uma luta variada e ter vencido em toda a linha, recebessem a grande coroa da imortalidade324.
37.Assim pois, Maturo e Santos, assim como Blandina e Atalo, foram conduzidos às feras, ao local público e para espectáculo comum da inumanidade dos pagãos, pois o dia de luta de feras deu-se precisamente por causa dos nossos.
38.No anfiteatro, Maturo e Santos passaram novamente por todo tipo de tormentos como se antes não tivessem padecido absolutamente nada, ou melhor, como atletas que já venceram os adversários em muitos combates e que seguem lutando pela mesma coroa. De novo sofreram as passadas dos chicotes que ali eram de costume, os puxões das feras e tudo o que o povo enlouquecido, cada qual de seu lugar, gritava e ordenava. E como arremate de tudo, a cadeira de ferro, de onde os corpos, ao serem assados, lançavam ao público um odor de carne queimada.
39.Mas estes, nem com tudo isto recuavam, mas até aumentava-se-lhes o frenesi querendo vencer a constância daqueles. Mas nem assim conseguiram ouvir de Santos outra coisa além da frase de confissão que desde o começo costumava repetir.
40.Assim pois, os mártires, que depois de atravessar o grande combate seguiam com muita vida foram por fim sacrificados325, convertidos naquele dia em espectáculo para o mundo em substituição à variada série de combates de gladiadores.
41.Blandina, por outro lado, foi pendurada num madeiro e ficou exposta às feras, que se lançavam sobre ela. Apenas por vê-la pendendo em forma de cruz e com sua oração contínua, infundia-se muito ânimo aos outros combatentes, que neste combate viam com seus olhos corpóreos, através de sua irmã, aquele que por eles próprios havia sido crucificado. E assim ela persuadia aos que crêem n'Ele de que todo aquele que padece pela glória de Cristo entra em comunhão perpétua com o Deus vivo.
42.Por não ter sido tocada então por nenhuma fera, desceram-na do madeiro e de novo levaram-na ao cárcere, guardando-a para outro combate; assim, depois de vencer em mais lutas, por um lado tornaria implacável a condenação da serpente tortuosa326, e por outro animaria seus irmãos; ela. Pequena, frágil e desprezada, mas revestida do grande e invencível atleta, Cristo, bateria o adversário em sucessivos combates, e pelo combate seria cingida com a coroa da incorruptibilidade.
43.Atalo, por sua vez, também foi reclamado com grande empenho pela plebe (pois tinha grande renome). Entrou já como lutador treinado, graças a sua boa consciência, pois havia-se exercitado sinceramente na disciplina cristã e sempre havia sido entre nós uma testemunha da verdade.
44.Conduziram-no dando a volta ao anfiteatro, precedido de um cartaz no qual estava escrito em latim "Este é Atalo, o cristão"327, enquanto o público se inflamava terrivelmente contra ele. Ao saber o governador que ele era romano, mandou que o levassem com os demais que estavam no cárcere, acerca dos quais escreveu uma carta ao imperador e ficou esperando sua resposta.
45.O tempo que passou não foi ocioso nem estéril para eles, mas por sua paciência manifestou-se a imensa misericórdia de Cristo: por viverem eles, reviviam os mortos, e por serem mártires, outorgavam a graça aos que não o eram; assim, grande foi a alegria da Virgem Mãe ao recuperar vivos os que havia abortado mortos328.
46.Efectivamente, por meio deles, a maioria dos que haviam renegado voltavam sobre seus passos e de novo eram concebidos, reanimavam-se e aprendiam a confessar, e já com vida e fortalecidos, aproximavam-se do tribunal para serem novamente interrogados pelo governador, enquanto Deus, que não quer a morte do pecador329, preferindo o arrependimento, suavizava-lhes o caminho.
47.De fato, o imperador dispunha em seu edito que uns fossem degolados e os outros, contanto que renegassem, absolvidos330. Ao iniciar-se a grande festa local (comparece a ela grande multidão de pessoas de todas as raças), o governador fez levar novamente ao tribunal os bem-aventurados, como forma de teatro e de espectáculo para as multidões. Por isso interrogou-os novamente, e aos que pareciam ter título de cidadãos romanos, fazia decapitar331, enquanto os demais eram mandados às feras.
48.Mas Cristo foi grandemente glorificado naqueles que primeiramente haviam renegado e que agora, contra o que poderiam esperar os pagãos, confessavam sua fé. Estes, na verdade, eram interrogados privadamente, como para serem em seguida postos em liberdade, mas ao confessar sua fé foram sendo juntados à fila dos mártires. Ficaram fora, porém, os que nunca tiveram nem um vestígio de fé, nem o sentido da vestimenta nupcial332 nem ideia do temor a Deus, mas que com sua maneira de viver infamavam o caminho333, ou seja, os filhos da perdição.
49.Por outro lado, todos os demais foram incorporados à Igreja. Quando estavam sendo interrogados, um tal Alexandre, frígio de nascimento e médico por profissão, que tinha vivido muitos anos nas Gálias e era conhecido de quase todos por seu amor a Deus e pela franqueza de seu falar (pois também participava do carisma apostólico), achava-se de pé junto ao tribunal e com gestos animava-os à confissão, parecendo aos que rodeavam a tribuna como se tivesse dores de parto.
50.A plebe, enfurecendo-se porque novamente confessavam aqueles que primeiro tinham renegado, pôs-se a gritar contra Alexandre, considerando-o causador de tudo, e o governador, notando-o, perguntou-lhe quem era, e como respondesse: "Um cristão", encolerizou-se e condenou-o às feras. No dia seguinte entrou na arena junto com Atalo, já que o governador, para agradar a plebe, entregou novamente Atalo às feras.
51.Os que passaram por todos os instrumentos inventados para torturar no anfiteatro e sustentaram um grande combate, também eles foram ao final sacrificados. Alexandre nem soluçou nem murmurou um mínimo sequer, mas em seu coração conversava com Deus.
52.Atalo, por outro lado, quando foi posto sobre a cadeira de ferro e começou a queimar-se e de seu corpo desprendia-se o cheiro de carne queimada, disse dirigindo-se em latim à multidão: "Estais vendo! Isto é comer homens, o que estais fazendo. Nós, por outro lado, nem comemos homens nem fazemos nada de mau." E como lhe perguntassem que nome tem Deus, respondeu: "Deus não tem nome como um homem."
53.Depois de tudo isto, no último dia de lutas de gladiadores, levaram novamente Blandina junto com Pôntico, rapaz de uns quinze anos. Cada dia tinham sido apresentados para que vissem as torturas dos outros. Começaram obrigando-os a jurar pelos ídolos dos pagãos; mas como eles permaneciam firmes e até os menosprezaram, a multidão ficou enfurecida contra eles ao ponto de não ter pena da idade do rapaz nem respeito pelo sexo feminino.
54.Entregaram-nos a todos os horrores e fizeram-nos percorrer todo o ciclo de torturas, uma após a outra, tentando forçá-los a jurar, sem que o conseguissem. Efectivamente, Pôntico, animado por sua irmã tanto que até os pagãos podiam ver que era ela que o exortava e confortava, depois de sofrer generosamente todo tipo de tormentos, entregou o espírito.
55.E a bem-aventurada Blandina, a última de todos, como nobre mãe que infundiu ânimo a seus filhos e os enviou adiante vitoriosos para seu rei, depois de percorrer também ela todos os combates de seus filhos, voava para eles alegre e prazerosa da partida, como se fosse convidada a um banquete de bodas e não lançada às feras.
56.Depois dos açoites, depois da feras e depois das chamas, por último atiraram-na a um touro. Lançada ao alto longo tempo pelo animal, insensível já ao que lhe acontecia por sua esperança mantida em tudo o que havia crido e por sua conversação com Cristo, também ela foi sacrificada, enquanto os próprios pagãos confessavam que jamais entre eles uma mulher havia padecido tantos e tais suplícios.
57.Mas nem assim fartou-se sua loucura e crueldade para com os santos, porque, incitada por uma fera selvagem, aquela tribo selvagem e bárbara não podia calar-se facilmente. Sua cruel insolência tomou outro rumo particular: fartar-se nos cadáveres.
58.De fato, não lhes causava a menor vergonha terem sido vencidos, já que não raciocinavam como homens, mas inflamava-se ainda mais sua cólera, como a de uma fera, e assim, tanto o governador como a plebe demonstravam ter o mesmo ódio injusto contra nós, para que se cumprisse a Escritura: que o injusto continue em sua injustiça, e que o justo continue sendo justificado334.
59.Efectivamente, os que haviam perecido asfixiados no cárcere eram lançados aos cães, sendo vigiados noite e dia para evitar que algum dos nossos lhes fizesse as honras fúnebres. Também então expuseram os restos deixados pelas feras e pelo fogo, em parte despedaçados e em parte carbonizados, e durante alguns dias seguidos custodiaram com guarda militar as cabeças dos outros, junto com seus troncos, assim mesmo insepultos.
60. E sobre estes restos alguns resmungavam e rangiam os dentes, buscando tomar deles alguma vingança suplementar; outros riam-se e zombavam, ao mesmo tempo que engrandeciam seus ídolos, a quem atribuíam o castigos daqueles, e os mais moderados e que pareciam compadecer-se um pouco repetiam insultos dizendo: "Onde está seu Deus e de que lhes valeu sua religião, a qual preferiram inclusive a sua própria vida?"
61.Assim variada era a atitude daqueles; nós, por outro lado, afundávamos em grande dor porque não podíamos enterrar os corpos, já que nem a noite nos ajudava nisto, nem o dinheiro conseguia persuadir nem as súplicas abrandar, mas por todos os meios os custodiavam, como se no facto de que os corpos não receberem sepultura eles tivessem grande vantagem."
62.Em continuação a isto, depois de algumas outras coisas, dizem: "Assim pois, os corpos dos mártires, depois de serem expostos ao escárnio de todos os modos possíveis e de ficarem às intempéries durante seis dias, foram logo queimados e reduzidos a cinzas, que aqueles ímpios lançaram ao rio Ródano, que passa perto dali, para que nem sequer suas relíquias ficassem ainda visíveis sobre a terra.
63.E faziam isto pensando que poderiam vencer Deus e arrebatar daqueles seu novo nascimento, com a finalidade de que, como eles diziam, "nem sequer esperança tenham de ressurreição; persuadidos dela, estão introduzindo uma religião estranha e nova, desprezam os tormentos e vêm dispostos e alegres à morte: vejamos agora se vão ressuscitar e se seu Deus pode socorre-los e arrancá-los de nossas mãos".
322 Martírio significa originalmente "testemunho".
323 Eram considerados criminosos comuns.
324 1 Co 9:25.
325 Provavelmente pelo confector.
326 Is 27:1.
327 Cartaz obrigatório para condenados que eram cidadãos romanos, mas a mente do redactor pode estar mais próxima
ao cartaz sobre a cruz de Jesus (Mt 27:37; Mc 15:26; Lc 23:38; Jo 19:19).
328 A "Virgem Mãe" é a Igreja.
329 Ez 18:23; 33:11; 2 Pe 3:9.
330 Marco Aurélio na verdade atém-se em sua resposta à regra de Trajano em sua carta a Plínio.
331 Atalo seria uma excepção.
332 Mt 22:11-13.
333 At 19:9; 2 Pe 2:2.
334 Ap 22:11.
Boa Leitura!
32.Foi então que teve lugar uma grande dispensação de Deus e se manifestou a imensa misericórdia de Jesus, como raramente havia ocorrido na comunidade dos irmãos, mas muito de acordo com o modo de Cristo.
33.Efectivamente, os que haviam renegado nas primeiras detenções foram também encarcerados e compartilhavam dos mesmos horrores, já que nesta ocasião de nada lhes serviu sua apostasia. Os que confessavam o que na verdade eram, eram encerrados como cristãos, sem nenhuma outra acusação; em compensação, os outros eram presos como homicidas e impuros e castigavam-nos em dobro do que aos demais323.
34.E assim os primeiros eram aliviados pela alegria do martírio, pela esperança do prometido, pelo amor de Cristo e o Espírito do Pai, enquanto que para estes outros, a consciência os atormentava grandemente, ao ponto de que, ao morrerem, podia-se reconhecer seu aspecto entre todos.
35.De fato, enquanto uns avançavam prazerosamente, com um misto de glória e graça abundantes em seus rostos, de modo que até suas correntes os cingiam como esplêndido adorno, como uma noiva ataviada com multicoloridos fios de ouro, e ao mesmo tempo espalhavam o suave odor de Cristo a ponto de fazer os outros pensarem que tinham-se ungido com perfumes mundanos, os outros, pelo contrário, faziam-no sombrios, cabisbaixos, disformes e cheios de rancor, e como se fosse pouco, até os pagãos tachavam-nos de ignóbeis e covardes: levavam a acusação de homicidas além de terem perdido seu nome venerabilíssimo, glorioso e vivificador. Quando os demais viram isto, reafirmaram se, e os que iam sendo detidos confessavam já sem vacilação e sem ter um único pensamento de cálculo diabólico."
36.Depois de juntar a isto algumas coisas intermediárias continuam: "Além disto, os géneros de morte dos mártires eram muito variados, pois com flores de toda espécie trançavam uma só coroa para oferece-la ao Pai, e assim era necessário que aqueles generosos atletas, depois de ter sustentado uma luta variada e ter vencido em toda a linha, recebessem a grande coroa da imortalidade324.
37.Assim pois, Maturo e Santos, assim como Blandina e Atalo, foram conduzidos às feras, ao local público e para espectáculo comum da inumanidade dos pagãos, pois o dia de luta de feras deu-se precisamente por causa dos nossos.
38.No anfiteatro, Maturo e Santos passaram novamente por todo tipo de tormentos como se antes não tivessem padecido absolutamente nada, ou melhor, como atletas que já venceram os adversários em muitos combates e que seguem lutando pela mesma coroa. De novo sofreram as passadas dos chicotes que ali eram de costume, os puxões das feras e tudo o que o povo enlouquecido, cada qual de seu lugar, gritava e ordenava. E como arremate de tudo, a cadeira de ferro, de onde os corpos, ao serem assados, lançavam ao público um odor de carne queimada.
39.Mas estes, nem com tudo isto recuavam, mas até aumentava-se-lhes o frenesi querendo vencer a constância daqueles. Mas nem assim conseguiram ouvir de Santos outra coisa além da frase de confissão que desde o começo costumava repetir.
40.Assim pois, os mártires, que depois de atravessar o grande combate seguiam com muita vida foram por fim sacrificados325, convertidos naquele dia em espectáculo para o mundo em substituição à variada série de combates de gladiadores.
41.Blandina, por outro lado, foi pendurada num madeiro e ficou exposta às feras, que se lançavam sobre ela. Apenas por vê-la pendendo em forma de cruz e com sua oração contínua, infundia-se muito ânimo aos outros combatentes, que neste combate viam com seus olhos corpóreos, através de sua irmã, aquele que por eles próprios havia sido crucificado. E assim ela persuadia aos que crêem n'Ele de que todo aquele que padece pela glória de Cristo entra em comunhão perpétua com o Deus vivo.
42.Por não ter sido tocada então por nenhuma fera, desceram-na do madeiro e de novo levaram-na ao cárcere, guardando-a para outro combate; assim, depois de vencer em mais lutas, por um lado tornaria implacável a condenação da serpente tortuosa326, e por outro animaria seus irmãos; ela. Pequena, frágil e desprezada, mas revestida do grande e invencível atleta, Cristo, bateria o adversário em sucessivos combates, e pelo combate seria cingida com a coroa da incorruptibilidade.
43.Atalo, por sua vez, também foi reclamado com grande empenho pela plebe (pois tinha grande renome). Entrou já como lutador treinado, graças a sua boa consciência, pois havia-se exercitado sinceramente na disciplina cristã e sempre havia sido entre nós uma testemunha da verdade.
44.Conduziram-no dando a volta ao anfiteatro, precedido de um cartaz no qual estava escrito em latim "Este é Atalo, o cristão"327, enquanto o público se inflamava terrivelmente contra ele. Ao saber o governador que ele era romano, mandou que o levassem com os demais que estavam no cárcere, acerca dos quais escreveu uma carta ao imperador e ficou esperando sua resposta.
45.O tempo que passou não foi ocioso nem estéril para eles, mas por sua paciência manifestou-se a imensa misericórdia de Cristo: por viverem eles, reviviam os mortos, e por serem mártires, outorgavam a graça aos que não o eram; assim, grande foi a alegria da Virgem Mãe ao recuperar vivos os que havia abortado mortos328.
46.Efectivamente, por meio deles, a maioria dos que haviam renegado voltavam sobre seus passos e de novo eram concebidos, reanimavam-se e aprendiam a confessar, e já com vida e fortalecidos, aproximavam-se do tribunal para serem novamente interrogados pelo governador, enquanto Deus, que não quer a morte do pecador329, preferindo o arrependimento, suavizava-lhes o caminho.
47.De fato, o imperador dispunha em seu edito que uns fossem degolados e os outros, contanto que renegassem, absolvidos330. Ao iniciar-se a grande festa local (comparece a ela grande multidão de pessoas de todas as raças), o governador fez levar novamente ao tribunal os bem-aventurados, como forma de teatro e de espectáculo para as multidões. Por isso interrogou-os novamente, e aos que pareciam ter título de cidadãos romanos, fazia decapitar331, enquanto os demais eram mandados às feras.
48.Mas Cristo foi grandemente glorificado naqueles que primeiramente haviam renegado e que agora, contra o que poderiam esperar os pagãos, confessavam sua fé. Estes, na verdade, eram interrogados privadamente, como para serem em seguida postos em liberdade, mas ao confessar sua fé foram sendo juntados à fila dos mártires. Ficaram fora, porém, os que nunca tiveram nem um vestígio de fé, nem o sentido da vestimenta nupcial332 nem ideia do temor a Deus, mas que com sua maneira de viver infamavam o caminho333, ou seja, os filhos da perdição.
49.Por outro lado, todos os demais foram incorporados à Igreja. Quando estavam sendo interrogados, um tal Alexandre, frígio de nascimento e médico por profissão, que tinha vivido muitos anos nas Gálias e era conhecido de quase todos por seu amor a Deus e pela franqueza de seu falar (pois também participava do carisma apostólico), achava-se de pé junto ao tribunal e com gestos animava-os à confissão, parecendo aos que rodeavam a tribuna como se tivesse dores de parto.
50.A plebe, enfurecendo-se porque novamente confessavam aqueles que primeiro tinham renegado, pôs-se a gritar contra Alexandre, considerando-o causador de tudo, e o governador, notando-o, perguntou-lhe quem era, e como respondesse: "Um cristão", encolerizou-se e condenou-o às feras. No dia seguinte entrou na arena junto com Atalo, já que o governador, para agradar a plebe, entregou novamente Atalo às feras.
51.Os que passaram por todos os instrumentos inventados para torturar no anfiteatro e sustentaram um grande combate, também eles foram ao final sacrificados. Alexandre nem soluçou nem murmurou um mínimo sequer, mas em seu coração conversava com Deus.
52.Atalo, por outro lado, quando foi posto sobre a cadeira de ferro e começou a queimar-se e de seu corpo desprendia-se o cheiro de carne queimada, disse dirigindo-se em latim à multidão: "Estais vendo! Isto é comer homens, o que estais fazendo. Nós, por outro lado, nem comemos homens nem fazemos nada de mau." E como lhe perguntassem que nome tem Deus, respondeu: "Deus não tem nome como um homem."
53.Depois de tudo isto, no último dia de lutas de gladiadores, levaram novamente Blandina junto com Pôntico, rapaz de uns quinze anos. Cada dia tinham sido apresentados para que vissem as torturas dos outros. Começaram obrigando-os a jurar pelos ídolos dos pagãos; mas como eles permaneciam firmes e até os menosprezaram, a multidão ficou enfurecida contra eles ao ponto de não ter pena da idade do rapaz nem respeito pelo sexo feminino.
54.Entregaram-nos a todos os horrores e fizeram-nos percorrer todo o ciclo de torturas, uma após a outra, tentando forçá-los a jurar, sem que o conseguissem. Efectivamente, Pôntico, animado por sua irmã tanto que até os pagãos podiam ver que era ela que o exortava e confortava, depois de sofrer generosamente todo tipo de tormentos, entregou o espírito.
55.E a bem-aventurada Blandina, a última de todos, como nobre mãe que infundiu ânimo a seus filhos e os enviou adiante vitoriosos para seu rei, depois de percorrer também ela todos os combates de seus filhos, voava para eles alegre e prazerosa da partida, como se fosse convidada a um banquete de bodas e não lançada às feras.
56.Depois dos açoites, depois da feras e depois das chamas, por último atiraram-na a um touro. Lançada ao alto longo tempo pelo animal, insensível já ao que lhe acontecia por sua esperança mantida em tudo o que havia crido e por sua conversação com Cristo, também ela foi sacrificada, enquanto os próprios pagãos confessavam que jamais entre eles uma mulher havia padecido tantos e tais suplícios.
57.Mas nem assim fartou-se sua loucura e crueldade para com os santos, porque, incitada por uma fera selvagem, aquela tribo selvagem e bárbara não podia calar-se facilmente. Sua cruel insolência tomou outro rumo particular: fartar-se nos cadáveres.
58.De fato, não lhes causava a menor vergonha terem sido vencidos, já que não raciocinavam como homens, mas inflamava-se ainda mais sua cólera, como a de uma fera, e assim, tanto o governador como a plebe demonstravam ter o mesmo ódio injusto contra nós, para que se cumprisse a Escritura: que o injusto continue em sua injustiça, e que o justo continue sendo justificado334.
59.Efectivamente, os que haviam perecido asfixiados no cárcere eram lançados aos cães, sendo vigiados noite e dia para evitar que algum dos nossos lhes fizesse as honras fúnebres. Também então expuseram os restos deixados pelas feras e pelo fogo, em parte despedaçados e em parte carbonizados, e durante alguns dias seguidos custodiaram com guarda militar as cabeças dos outros, junto com seus troncos, assim mesmo insepultos.
60. E sobre estes restos alguns resmungavam e rangiam os dentes, buscando tomar deles alguma vingança suplementar; outros riam-se e zombavam, ao mesmo tempo que engrandeciam seus ídolos, a quem atribuíam o castigos daqueles, e os mais moderados e que pareciam compadecer-se um pouco repetiam insultos dizendo: "Onde está seu Deus e de que lhes valeu sua religião, a qual preferiram inclusive a sua própria vida?"
61.Assim variada era a atitude daqueles; nós, por outro lado, afundávamos em grande dor porque não podíamos enterrar os corpos, já que nem a noite nos ajudava nisto, nem o dinheiro conseguia persuadir nem as súplicas abrandar, mas por todos os meios os custodiavam, como se no facto de que os corpos não receberem sepultura eles tivessem grande vantagem."
62.Em continuação a isto, depois de algumas outras coisas, dizem: "Assim pois, os corpos dos mártires, depois de serem expostos ao escárnio de todos os modos possíveis e de ficarem às intempéries durante seis dias, foram logo queimados e reduzidos a cinzas, que aqueles ímpios lançaram ao rio Ródano, que passa perto dali, para que nem sequer suas relíquias ficassem ainda visíveis sobre a terra.
63.E faziam isto pensando que poderiam vencer Deus e arrebatar daqueles seu novo nascimento, com a finalidade de que, como eles diziam, "nem sequer esperança tenham de ressurreição; persuadidos dela, estão introduzindo uma religião estranha e nova, desprezam os tormentos e vêm dispostos e alegres à morte: vejamos agora se vão ressuscitar e se seu Deus pode socorre-los e arrancá-los de nossas mãos".
322 Martírio significa originalmente "testemunho".
323 Eram considerados criminosos comuns.
324 1 Co 9:25.
325 Provavelmente pelo confector.
326 Is 27:1.
327 Cartaz obrigatório para condenados que eram cidadãos romanos, mas a mente do redactor pode estar mais próxima
ao cartaz sobre a cruz de Jesus (Mt 27:37; Mc 15:26; Lc 23:38; Jo 19:19).
328 A "Virgem Mãe" é a Igreja.
329 Ez 18:23; 33:11; 2 Pe 3:9.
330 Marco Aurélio na verdade atém-se em sua resposta à regra de Trajano em sua carta a Plínio.
331 Atalo seria uma excepção.
332 Mt 22:11-13.
333 At 19:9; 2 Pe 2:2.
334 Ap 22:11.
sábado, 9 de abril de 2011
Quantos foram e de que modo lutaram nos tempos de Vero pela religião na Gália I
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Foi pois a Gália o país em que se preparou o estádio, lugar dos fatos mencionados. Duas metrópoles eram célebres por sua distinção e por sua importância entre as outras: Lion e Viena. Ambas são atravessadas pelo Ródano, que flui ao longo de todo o país com grande caudal.
2.As ilustríssimas igrejas daquela região transmitiram às igrejas da Ásia e Frígia312 a carta sobre os mártires, e narram o ocorrido da seguinte maneira. Citarei suas próprias palavras.
3."Os servos de Cristo que peregrinam em Viena e em Lion da Gália, aos irmãos que na Ásia e na Frígia compartilham conosco a mesma fé e a mesma esperança da redenção: paz, graça e glória por parte de Deus Pai e de Jesus Cristo, nosso Senhor."
4.Depois, em continuação, seguem dizendo outras coisas como prólogo e dão início a seu relato nos seguintes termos: "Descrever pois, com justiça a magnitude desta tribulação daqui, o grau de irritação dos pagãos contra os santos e o número de sofrimentos que os bem-aventurados mártires suportaram, nem está em nossa capacidade nem sequer é possível encerrar em um escrito.
5.E ocorreu que o adversário313 atacou com todas as suas forças, como prelúdio já do descaramento de sua vinda iminente. Meteu-se por todos os lados, acostumando os seus e exercitando-os de antemão contra os servos de Deus, de forma que não só nos expulsam das casas, dos banhos e das praças, mas que inclusive proíbem que algum de nós deixe-se ver de qualquer forma em qualquer lugar que seja.
6.Mas a graça de Deus opunha-se a sua estratégia: retinha os fracos e apresentava à frente uma formação de sólidas colunas, capazes de atrair sobre si, com sua paciência, todo o ímpeto do malvado. Estes marcharam a seu encontro, suportando toda sorte de injúrias e castigos314. Considerando pouco o que era muito, apressavam seu passo para Cristo e mostravam realmente que os sofrimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória que está para ser revelada em nós315.
7.Em primeiro lugar suportaram generosamente os assaltos massivos de toda a plebe: insultos, golpes, sacudidas, rapinas, apedrejamentos, passagem por apertos e tudo quanto fosse do gosto de uma plebe enfurecida contra pessoas que considera odiosas e inimigas.
8.E depois de serem conduzidos a praça pública e de serem julgados pelo tribuno e pelos magistrados da cidade em presença de toda a multidão, foram encerrados no cárcere até a chegada do governador.
9.Mais tarde conduziram-nos ante o governador. Como estes usou de toda sua crueldade contra nós, um dos irmãos, Vetio Epágato, que possuía em plenitude o amor a Deus e ao próximo e cuja conduta tinha sido tão estrita que, sendo ainda jovem, fez-se merecedor do testemunho do ancião Zacarias, já que havia caminhado irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor, diligente em todo serviço ao próximo, com muito zelo com Deus e fervor de espírito, por ser de tal índole, não suportou que se procedesse contra nós com um juízo tão irracional. Fortemente indignado, pediu para ser também ele ouvido e defendeu, em favor dos irmãos, que entre nós nada há de ateu nem de ímpio.
10.Os que rodeavam o tribunal passaram a gritar contra ele - pois era homem importante -, e o juiz, não tolerando a petição assim proposta por ele, queria unicamente saber se também era cristão. Como Vetio o confessasse com voz claríssima, também ele foi recebido nas fileiras dos mártires. Foi chamado consolador316 dos cristãos, pois dentro de si tinha o consolador, o Espírito de Zacarias, o que havia mostrado com a plenitude de seu amor achar bom sair em defesa dos irmãos e expor sua própria vida, porque era e continua sendo genuíno discípulo de Cristo, que vai atrás do Cordeiro onde quer que este vá.
11.A partir daqui, os demais se dividem: aparecem claramente os preparados para dar testemunho, os que com todo ser ardor completavam a confissão do martírio; mas também se manifestaram os que não estavam dispostos, destreinados e até fracos, incapazes de agüentar a tensão de um grande combate. Destes uns dez abortaram. Grande foi a aflição e imensa a dor que nos causaram e grave o dano causado ao entusiasmo dos outros que não haviam sido presos com eles e que, apesar de estar sofrendo toda classe de horrores, contudo, assistiam os mártires e não os abandonaram.
12.Mas então todos ficamos muito aterrados ante a incerteza da confissão, não por temor aos castigos, mas porque víamos como distante o fim e temíamos que alguém sucumbisse.
13.Mesmo assim, a cada dia detinham os que eram dignos de completar o número daqueles, tanto que juntaram todas as pessoas importantes das duas igrejas, graças às quais, sobretudo, tem importância os assuntos daqui.
14.Foram presos também alguns pagãos, criados dos nossos, quando o governador mandou que se buscassem todos os nossos. Estes, pelas insídias de Satanás, temendo os tormentos que viam padecer os santos e forçados a isto pelos soldados, acusaram-nos falsamente de ceias canibais, de promiscuidades edípicas e de tantas outras coisas que para nós não é lícito nem dizer nem pensar, nem mesmo crer que tais coisas tenham ocorrido entre os homens.
15. Quando este rumor se espalhou, todos se revoltaram como feras contra nós, tanto que, se a princípio alguns se comportaram com moderação por amizade, começaram então a mostrar-se muito hostis e raivosos contra nós. Estava se cumprindo o que dissera nosso Senhor: Virá um tempo em que todo aquele que vos matar pensará estar prestando culto a Deus317.
16.Desde então os santos mártires suportaram castigos que excedem a toda descrição, enquanto Satanás se esforçava para arrancar-lhes também alguma palavra blasfema.
17.Toda a fúria da multidão, do governador e dos soldados abateu-se transbordante sobre o diácono Santos, de Viena, sobre Maturo, recém-baptizado mas nobre lutador, sobre Atalo, oriundo de Pérgamo e que sempre havia sido coluna e fundamento dos cristãos daqui, e sobre Blandina, por meio da qual Cristo demonstrou que o que entre os homens parece vulgar, disforme e facilmente desprezável, por parte de Deus é considerado digno de grande glória devido ao amor a Ele, amor que se mostra na força e que não se vangloria da aparência.
18.Efetivamente, enquanto todos nós estávamos temerosos e sua própria senhora segundo a carne - também ela uma de nossos mártires combatentes -temíamos que por fraqueza de seu corpo não tivesse forças para proclamar livremente sua confissão, Blandina viu-se cheia de uma força tão grande que extenuava e esgotava aqueles que, em turnos e de todas as maneiras, torturavam-na desde o amanhecer até o ocaso; eles mesmos confessavam que estavam vencidos, sem nada poder fazer com ela, e se admiravam de como podia manter-se com alento estando todo seu corpo dilacerado e aberto, e atestavam que um só tipo de suplício bastaria para tirar a vida, sem necessidade de tantos e tão terríveis.
19.Mas a bem-aventurada mulher, como nobre atleta, rejuvenescia na confissão, e para ela era recuperação de forças, descanso e ausência de dor em meio aos acontecimentos o dizer: "Sou cristã, e nada de mal é feito entre nós!"
20.Também Santos suportou nobremente, além de toda medida humana, todos os maus-tratos que provêm dos homens. Os iníquos esperavam que pela persistência e magnitude dos tormentos ouviriam dele algo indevido, mas resistiu-lhes com tal firmeza, que não revelou nem seu próprio nome, nem de sua família, nem da cidade de onde vinha nem se era escravo ou se era livre, mas a tudo que lhe perguntavam respondia em latim: "Sou cristão!" Em lugar de seu nome, de sua cidade, de sua família e de tudo, isto é o que confessava sucessivamente, e nenhuma outra palavra ouviram dele os pagãos.
21.Por esta razão, tanto o governador quanto os torturadores ensandeceram-se de tal maneira contra ele que, quando já não sabiam o que fazer-lhe, por último aplicaram-lhe placas de cobre em brasa aos membros mais delicados de seu corpo.
22.Estes certamente se queimaram, mas ele se manteve inflexível e firme, constante na confissão, borrifado e fortalecido pela fonte santa da água viva que brota das entranhas de Cristo318.
23.Seu corpo atestava o ocorrido: todo ele era uma chaga, todo confusão, moído e tendo perdido toda forma humana; mas Cristo padecia nele e realizava grandes glórias anulando o adversário e mostrando, para exemplo dos demais, que nada há de temível onde está o amor do Pai, nem doloroso onde está a glória de Cristo.
24.Efectivamente, depois de alguns dias, aqueles malvados começaram novamente a torturar o mártir, pensando que poderiam vencê-lo se, estando suas carnes inchadas e inflamadas, lhe aplicassem os mesmos suplícios agora que nem sequer suportava o toque das mãos, ou então que, morrendo em meio aos tormentos, infundiria temor aos outros. Mas não somente nada disso aconteceu com ele, mas, contra o que todos pensavam, recuperou-se, e seu corpo se endireitou entre os tormentos que seguiram e recobrou sua forma original e o uso dos membros, de maneira que a segunda tortura foi para ele não um suplício, mas cura pela graça de Cristo.
25.E Biblida também, uma das que haviam renegado. O diabo já pensava que a havia devorado319, mas querendo também condená-la por blasfémia, conduziu-a à tortura e a forçava a declarar sobre nós aquelas ímpias calúnias, já seguro de sua fragilidade e covardia.
26.Mas ela, no tormenta, voltou a si e, por assim dizer, despertou de um sono profundo. Recordando então, graças àqueles castigos temporários, o castigo eterno no inferno320, pôs-se pelo contrário, a replicar aos detractores e dizia: "Como poderiam estas pessoas comer uma criança se nem sequer lhes é permitido comer sangue de animais irracionais?"321 E desde esse instante passou a confessar que também ela mesma era cristã, e foi incorporada à fila dos mártires.
27.Anulados por Cristo os tormentos dos tiranos por meio da constância dos santos, o diabo pôs-se a imaginar outros recursos, o encerramento no pior e mais escuro lugar do cárcere, a distensão dos pés no cepo, separados até o quinto furo, e os demais suplícios que os funcionários irritados e endiabrados costumavam infligir aos presos, tanto que no cárcere a maior parte morreu asfixiada, ao menos quando o Senhor quis que assim morressem, mostrando sua própria glória.
28. Efectivamente, alguns que haviam sido cruelmente torturados até o ponto de parecer que não poderiam viver ainda que se lhes desse todo tipo de cuidados, permaneciam no cárcere, desprovidos, naturalmente, de toda assistência humana; mas fortalecidos pelo Senhor em seus corpos e em suas almas, animavam e consolavam os demais. Outros, em compensação, jovens e recém-detidos, cujos corpos não haviam sido torturados antes, não suportavam o peso do
29.O bem-aventurado Potino, a quem fora confiado o ministério do episcopado de Lion, passava já da idade de noventa anos e seu corpo estava fraco. Por causa desta sua debilidade corporal apenas conseguia respirar, mas por seu grande desejo do martírio322, o ardor de seu espírito devolvia-lhe as forças. Também ele foi arrastado ao tribunal com o corpo desfazendo-se pela velhice e pela enfermidade, mas com sua alma conservada para que por ela Cristo triunfasse.
30.Levado pelos soldados ante o tribunal com acompanhamento das autoridades da cidade e de toda a plebe gritando-lhe toda classe de injúrias, como se ele mesmo fosse o Cristo, deu formoso testemunho.
31.Quando o governador perguntou-lhe quem era o Deus dos cristãos, disse: "Se fores digno, o conhecerás." Então arrastaram-no sem cuidados e sofreu diversas feridas; os que estavam perto faziam-lhe todo tipo de afronta com pés e mãos, sem o menor respeito por sua idade, e os que estava distantes atiravam cada um o que tivesse à mão, e todos criam errar gravemente e ser uns ímpios se omitissem alguma insolência contra ele, pois pensavam que assim vingavam seus deuses. Ele, apenas respirando, foi jogado no cárcere, e ao fim de alguns dias entregou sua alma.
312 A explicação tradicional sobre a relação de pontos tão distantes é que as igrejas destas cidades seriam formadas principalmente por cristãos emigrados da Ásia Menor, mas existe a possibilidade de que Eusébio tenha confundido a Galácia do Ponto com a Gália do ocidente.
313 Depois de destacar a irritação popular contra os cristãos, declara-se o causador: o "adversário", Satanás.
314 Hb 10:33.
315 Rm 8:18.
316 Pode ser traduzido também como "advogado".
317 Jo 16:2.
318 Jo 7:38; 19:34; Ap 21:6.
319 1Pe 5:8.
320 Mt 25:46.
321 Alusão à norma apostólica de At 15:29, não implica que ainda estivesse vigente em Lion.
encerramento e morriam lá dentro.
Boa Leitura!
1.Foi pois a Gália o país em que se preparou o estádio, lugar dos fatos mencionados. Duas metrópoles eram célebres por sua distinção e por sua importância entre as outras: Lion e Viena. Ambas são atravessadas pelo Ródano, que flui ao longo de todo o país com grande caudal.
2.As ilustríssimas igrejas daquela região transmitiram às igrejas da Ásia e Frígia312 a carta sobre os mártires, e narram o ocorrido da seguinte maneira. Citarei suas próprias palavras.
3."Os servos de Cristo que peregrinam em Viena e em Lion da Gália, aos irmãos que na Ásia e na Frígia compartilham conosco a mesma fé e a mesma esperança da redenção: paz, graça e glória por parte de Deus Pai e de Jesus Cristo, nosso Senhor."
4.Depois, em continuação, seguem dizendo outras coisas como prólogo e dão início a seu relato nos seguintes termos: "Descrever pois, com justiça a magnitude desta tribulação daqui, o grau de irritação dos pagãos contra os santos e o número de sofrimentos que os bem-aventurados mártires suportaram, nem está em nossa capacidade nem sequer é possível encerrar em um escrito.
5.E ocorreu que o adversário313 atacou com todas as suas forças, como prelúdio já do descaramento de sua vinda iminente. Meteu-se por todos os lados, acostumando os seus e exercitando-os de antemão contra os servos de Deus, de forma que não só nos expulsam das casas, dos banhos e das praças, mas que inclusive proíbem que algum de nós deixe-se ver de qualquer forma em qualquer lugar que seja.
6.Mas a graça de Deus opunha-se a sua estratégia: retinha os fracos e apresentava à frente uma formação de sólidas colunas, capazes de atrair sobre si, com sua paciência, todo o ímpeto do malvado. Estes marcharam a seu encontro, suportando toda sorte de injúrias e castigos314. Considerando pouco o que era muito, apressavam seu passo para Cristo e mostravam realmente que os sofrimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória que está para ser revelada em nós315.
7.Em primeiro lugar suportaram generosamente os assaltos massivos de toda a plebe: insultos, golpes, sacudidas, rapinas, apedrejamentos, passagem por apertos e tudo quanto fosse do gosto de uma plebe enfurecida contra pessoas que considera odiosas e inimigas.
8.E depois de serem conduzidos a praça pública e de serem julgados pelo tribuno e pelos magistrados da cidade em presença de toda a multidão, foram encerrados no cárcere até a chegada do governador.
9.Mais tarde conduziram-nos ante o governador. Como estes usou de toda sua crueldade contra nós, um dos irmãos, Vetio Epágato, que possuía em plenitude o amor a Deus e ao próximo e cuja conduta tinha sido tão estrita que, sendo ainda jovem, fez-se merecedor do testemunho do ancião Zacarias, já que havia caminhado irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor, diligente em todo serviço ao próximo, com muito zelo com Deus e fervor de espírito, por ser de tal índole, não suportou que se procedesse contra nós com um juízo tão irracional. Fortemente indignado, pediu para ser também ele ouvido e defendeu, em favor dos irmãos, que entre nós nada há de ateu nem de ímpio.
10.Os que rodeavam o tribunal passaram a gritar contra ele - pois era homem importante -, e o juiz, não tolerando a petição assim proposta por ele, queria unicamente saber se também era cristão. Como Vetio o confessasse com voz claríssima, também ele foi recebido nas fileiras dos mártires. Foi chamado consolador316 dos cristãos, pois dentro de si tinha o consolador, o Espírito de Zacarias, o que havia mostrado com a plenitude de seu amor achar bom sair em defesa dos irmãos e expor sua própria vida, porque era e continua sendo genuíno discípulo de Cristo, que vai atrás do Cordeiro onde quer que este vá.
11.A partir daqui, os demais se dividem: aparecem claramente os preparados para dar testemunho, os que com todo ser ardor completavam a confissão do martírio; mas também se manifestaram os que não estavam dispostos, destreinados e até fracos, incapazes de agüentar a tensão de um grande combate. Destes uns dez abortaram. Grande foi a aflição e imensa a dor que nos causaram e grave o dano causado ao entusiasmo dos outros que não haviam sido presos com eles e que, apesar de estar sofrendo toda classe de horrores, contudo, assistiam os mártires e não os abandonaram.
12.Mas então todos ficamos muito aterrados ante a incerteza da confissão, não por temor aos castigos, mas porque víamos como distante o fim e temíamos que alguém sucumbisse.
13.Mesmo assim, a cada dia detinham os que eram dignos de completar o número daqueles, tanto que juntaram todas as pessoas importantes das duas igrejas, graças às quais, sobretudo, tem importância os assuntos daqui.
14.Foram presos também alguns pagãos, criados dos nossos, quando o governador mandou que se buscassem todos os nossos. Estes, pelas insídias de Satanás, temendo os tormentos que viam padecer os santos e forçados a isto pelos soldados, acusaram-nos falsamente de ceias canibais, de promiscuidades edípicas e de tantas outras coisas que para nós não é lícito nem dizer nem pensar, nem mesmo crer que tais coisas tenham ocorrido entre os homens.
15. Quando este rumor se espalhou, todos se revoltaram como feras contra nós, tanto que, se a princípio alguns se comportaram com moderação por amizade, começaram então a mostrar-se muito hostis e raivosos contra nós. Estava se cumprindo o que dissera nosso Senhor: Virá um tempo em que todo aquele que vos matar pensará estar prestando culto a Deus317.
16.Desde então os santos mártires suportaram castigos que excedem a toda descrição, enquanto Satanás se esforçava para arrancar-lhes também alguma palavra blasfema.
17.Toda a fúria da multidão, do governador e dos soldados abateu-se transbordante sobre o diácono Santos, de Viena, sobre Maturo, recém-baptizado mas nobre lutador, sobre Atalo, oriundo de Pérgamo e que sempre havia sido coluna e fundamento dos cristãos daqui, e sobre Blandina, por meio da qual Cristo demonstrou que o que entre os homens parece vulgar, disforme e facilmente desprezável, por parte de Deus é considerado digno de grande glória devido ao amor a Ele, amor que se mostra na força e que não se vangloria da aparência.
18.Efetivamente, enquanto todos nós estávamos temerosos e sua própria senhora segundo a carne - também ela uma de nossos mártires combatentes -temíamos que por fraqueza de seu corpo não tivesse forças para proclamar livremente sua confissão, Blandina viu-se cheia de uma força tão grande que extenuava e esgotava aqueles que, em turnos e de todas as maneiras, torturavam-na desde o amanhecer até o ocaso; eles mesmos confessavam que estavam vencidos, sem nada poder fazer com ela, e se admiravam de como podia manter-se com alento estando todo seu corpo dilacerado e aberto, e atestavam que um só tipo de suplício bastaria para tirar a vida, sem necessidade de tantos e tão terríveis.
19.Mas a bem-aventurada mulher, como nobre atleta, rejuvenescia na confissão, e para ela era recuperação de forças, descanso e ausência de dor em meio aos acontecimentos o dizer: "Sou cristã, e nada de mal é feito entre nós!"
20.Também Santos suportou nobremente, além de toda medida humana, todos os maus-tratos que provêm dos homens. Os iníquos esperavam que pela persistência e magnitude dos tormentos ouviriam dele algo indevido, mas resistiu-lhes com tal firmeza, que não revelou nem seu próprio nome, nem de sua família, nem da cidade de onde vinha nem se era escravo ou se era livre, mas a tudo que lhe perguntavam respondia em latim: "Sou cristão!" Em lugar de seu nome, de sua cidade, de sua família e de tudo, isto é o que confessava sucessivamente, e nenhuma outra palavra ouviram dele os pagãos.
21.Por esta razão, tanto o governador quanto os torturadores ensandeceram-se de tal maneira contra ele que, quando já não sabiam o que fazer-lhe, por último aplicaram-lhe placas de cobre em brasa aos membros mais delicados de seu corpo.
22.Estes certamente se queimaram, mas ele se manteve inflexível e firme, constante na confissão, borrifado e fortalecido pela fonte santa da água viva que brota das entranhas de Cristo318.
23.Seu corpo atestava o ocorrido: todo ele era uma chaga, todo confusão, moído e tendo perdido toda forma humana; mas Cristo padecia nele e realizava grandes glórias anulando o adversário e mostrando, para exemplo dos demais, que nada há de temível onde está o amor do Pai, nem doloroso onde está a glória de Cristo.
24.Efectivamente, depois de alguns dias, aqueles malvados começaram novamente a torturar o mártir, pensando que poderiam vencê-lo se, estando suas carnes inchadas e inflamadas, lhe aplicassem os mesmos suplícios agora que nem sequer suportava o toque das mãos, ou então que, morrendo em meio aos tormentos, infundiria temor aos outros. Mas não somente nada disso aconteceu com ele, mas, contra o que todos pensavam, recuperou-se, e seu corpo se endireitou entre os tormentos que seguiram e recobrou sua forma original e o uso dos membros, de maneira que a segunda tortura foi para ele não um suplício, mas cura pela graça de Cristo.
25.E Biblida também, uma das que haviam renegado. O diabo já pensava que a havia devorado319, mas querendo também condená-la por blasfémia, conduziu-a à tortura e a forçava a declarar sobre nós aquelas ímpias calúnias, já seguro de sua fragilidade e covardia.
26.Mas ela, no tormenta, voltou a si e, por assim dizer, despertou de um sono profundo. Recordando então, graças àqueles castigos temporários, o castigo eterno no inferno320, pôs-se pelo contrário, a replicar aos detractores e dizia: "Como poderiam estas pessoas comer uma criança se nem sequer lhes é permitido comer sangue de animais irracionais?"321 E desde esse instante passou a confessar que também ela mesma era cristã, e foi incorporada à fila dos mártires.
27.Anulados por Cristo os tormentos dos tiranos por meio da constância dos santos, o diabo pôs-se a imaginar outros recursos, o encerramento no pior e mais escuro lugar do cárcere, a distensão dos pés no cepo, separados até o quinto furo, e os demais suplícios que os funcionários irritados e endiabrados costumavam infligir aos presos, tanto que no cárcere a maior parte morreu asfixiada, ao menos quando o Senhor quis que assim morressem, mostrando sua própria glória.
28. Efectivamente, alguns que haviam sido cruelmente torturados até o ponto de parecer que não poderiam viver ainda que se lhes desse todo tipo de cuidados, permaneciam no cárcere, desprovidos, naturalmente, de toda assistência humana; mas fortalecidos pelo Senhor em seus corpos e em suas almas, animavam e consolavam os demais. Outros, em compensação, jovens e recém-detidos, cujos corpos não haviam sido torturados antes, não suportavam o peso do
29.O bem-aventurado Potino, a quem fora confiado o ministério do episcopado de Lion, passava já da idade de noventa anos e seu corpo estava fraco. Por causa desta sua debilidade corporal apenas conseguia respirar, mas por seu grande desejo do martírio322, o ardor de seu espírito devolvia-lhe as forças. Também ele foi arrastado ao tribunal com o corpo desfazendo-se pela velhice e pela enfermidade, mas com sua alma conservada para que por ela Cristo triunfasse.
30.Levado pelos soldados ante o tribunal com acompanhamento das autoridades da cidade e de toda a plebe gritando-lhe toda classe de injúrias, como se ele mesmo fosse o Cristo, deu formoso testemunho.
31.Quando o governador perguntou-lhe quem era o Deus dos cristãos, disse: "Se fores digno, o conhecerás." Então arrastaram-no sem cuidados e sofreu diversas feridas; os que estavam perto faziam-lhe todo tipo de afronta com pés e mãos, sem o menor respeito por sua idade, e os que estava distantes atiravam cada um o que tivesse à mão, e todos criam errar gravemente e ser uns ímpios se omitissem alguma insolência contra ele, pois pensavam que assim vingavam seus deuses. Ele, apenas respirando, foi jogado no cárcere, e ao fim de alguns dias entregou sua alma.
312 A explicação tradicional sobre a relação de pontos tão distantes é que as igrejas destas cidades seriam formadas principalmente por cristãos emigrados da Ásia Menor, mas existe a possibilidade de que Eusébio tenha confundido a Galácia do Ponto com a Gália do ocidente.
313 Depois de destacar a irritação popular contra os cristãos, declara-se o causador: o "adversário", Satanás.
314 Hb 10:33.
315 Rm 8:18.
316 Pode ser traduzido também como "advogado".
317 Jo 16:2.
318 Jo 7:38; 19:34; Ap 21:6.
319 1Pe 5:8.
320 Mt 25:46.
321 Alusão à norma apostólica de At 15:29, não implica que ainda estivesse vigente em Lion.
encerramento e morriam lá dentro.
sábado, 2 de abril de 2011
Livro V - Prólogo
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Assim pois, Sotero, o bispo da igreja de Roma, morreu depois de governar até seu oitavo ano, e foi sucedido por Eleutério, décimo segundo a partir dos apóstolos. Corria o décimo sétimo ano do imperador Antonino Vero. Neste tempo reavivou-se com maior violência em algumas partes da terra a perseguição contra nós e, pelos ataques dos habitantes das cidades, pode-se conjecturar que foram milhares os mártires que se distinguiram se levamos em conta o ocorrido em uma só nação, que por ser realmente digno de lembrança imorredoura, foi transmitido por escrito à posteridade.
2.O escrito inteiro do completíssimo relato sobre estes factos consta de nossa Recompilação de Martírios, que compreende uma explicação não apenas narrativa, mas também instrutiva. Na presente obra tomarei e citarei ao menos o que aquela contenha sobre o tema que nos ocupa.
3.Outros, ao fazerem as narrativas históricas, não transmitem por escrito mais do que vitórias em guerras, troféus de inimigos, façanhas de generais e valentias de soldados manchados de sangue e de mortes inumeráveis por causa dos filhos, da pátria e demais bens.
4.Nossa obra, por outro lado, que descreve o modo de vida segundo Deus, gravará em lápides eternas as mais pacíficas lutas pela própria paz da alma e o nome dos que nelas se comportaram varonilmente, mais pela verdade do que pela terra pátria, e mais pela religião do que pelos seres queridos, e se proclamará publicamente, para eterna memória, a resistência dos atletas da fé, sua bravura, curtida em mil sofrimentos, os troféus conquistados contra os demónios, as vitórias sobre os adversários invisíveis e, depois de tudo, suas coroas.
Boa Leitura!
1.Assim pois, Sotero, o bispo da igreja de Roma, morreu depois de governar até seu oitavo ano, e foi sucedido por Eleutério, décimo segundo a partir dos apóstolos. Corria o décimo sétimo ano do imperador Antonino Vero. Neste tempo reavivou-se com maior violência em algumas partes da terra a perseguição contra nós e, pelos ataques dos habitantes das cidades, pode-se conjecturar que foram milhares os mártires que se distinguiram se levamos em conta o ocorrido em uma só nação, que por ser realmente digno de lembrança imorredoura, foi transmitido por escrito à posteridade.
2.O escrito inteiro do completíssimo relato sobre estes factos consta de nossa Recompilação de Martírios, que compreende uma explicação não apenas narrativa, mas também instrutiva. Na presente obra tomarei e citarei ao menos o que aquela contenha sobre o tema que nos ocupa.
3.Outros, ao fazerem as narrativas históricas, não transmitem por escrito mais do que vitórias em guerras, troféus de inimigos, façanhas de generais e valentias de soldados manchados de sangue e de mortes inumeráveis por causa dos filhos, da pátria e demais bens.
4.Nossa obra, por outro lado, que descreve o modo de vida segundo Deus, gravará em lápides eternas as mais pacíficas lutas pela própria paz da alma e o nome dos que nelas se comportaram varonilmente, mais pela verdade do que pela terra pátria, e mais pela religião do que pelos seres queridos, e se proclamará publicamente, para eterna memória, a resistência dos atletas da fé, sua bravura, curtida em mil sofrimentos, os troféus conquistados contra os demónios, as vitórias sobre os adversários invisíveis e, depois de tudo, suas coroas.
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Dos mártires mencionados por Justino em sua própria obra
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa leitura!
1. O mesmo autor, antes de seu próprio combate, menciona em sua primeira Apologia a outros mártires anteriores a ele. Também este relato é útil para nosso intento.
2.Escreve assim: "Uma mulher vivia com seu dissoluto marido, e ela mesma havia-se dado anteriormente à vida dissoluta. Mas, depois que conheceu os ensinamentos de Cristo, aprendeu a conter-se e tratava de persuadir seu marido a tornar-se casto também, apresentando os ensinamentos e anunciando-lhe o castigo que no fogo eterno terão os que não vivem castamente e conforme a recta razão.
3.Mas ele perseverava na mesma devassidão e com suas obras seguia afastando-se de sua esposa, pois a mulher, considerando ímpio seguir compartilhando o leito com um homem que buscava recursos de prazer por todos os meios, contra a lei da natureza e contra a justiça, quis divorciar-se.
4.E como os seus lhe suplicaram e a aconselharam que aguardasse ainda, com a esperança de que o homem pudesse um dia mudar, fazendo uma violência contra si mesma, esperou.
5.Mas depois que seu marido foi para Alexandria e ela teve notícia de que ali fazia coisas piores, para evitar compartilhar com ele as injustiças e impiedades permanecendo no matrimónio e compartilhando a mesa e o leito, deu-lhe o que entre vós se chama repudium e se separou.
6.Mas o bom de seu marido, que deveria alegrar-se de que sua mulher, antes entregue à vida fácil com criados e diaristas, desfrutando de bebedeiras e todo tipo de maldades, não somente havia cessado com todas estas práticas, mas que também queria que ele deixasse de fazer o mesmo, porque havia se separado sem que ele o quisesse, vai e a acusa de ser cristã.
7.E ela apresentou a ti, imperador, um libelo em que pedia, em primeiro lugar, que lhe fosse permitido dispor de seus bens, e depois, quando seus assuntos estivessem arranjados, apresentar sua defesa frente à acusação. E tu o permitiste.
8.Mas seu ex-marido, não podendo então dizer nada contra ela, voltou-se contra um tal Ptolomeu - a quem Urbicio havia imposto um castigo - porque havia sido mestre daquela nas doutrinas cristãs. Procedeu da seguinte maneira:
9.Ao Centurião que havia aprisionado Ptolomeu, e que era seu amigo, persuadiu a que se apoderasse de Ptolomeu e lhe dirigisse esta única pergunta: se era cristão. E Ptolomeu, que amava a verdade e não tinha o carácter embusteiro nem mentiroso, confessou que era cristão. O Centurião fez com que o acorrentassem, e durante muito tempo submeteu-o a castigo no cárcere.
10.E quando por último Ptolomeu foi conduzido à presença de Urbicio, também lhe perguntaram unicamente isto: se era cristão. E novamente, consciente do bem que havia recebido por meio da doutrina de Cristo, confessou a escola da divina virtude;
11.porque quem nega algo, o que quer que seja, ou nega porque o condena, ou rejeita a confissão porque considera a si mesmo indigno e alheio a isto. Nenhum destes casos enquadra o verdadeiro cristão.
12.E quando Urbicio mandou que o levassem à execução, um tal Lúcio, que também era cristão, vendo que a sentença era dada tão contra a razão, disse dirigindo-se a Urbicio: 'Qual é a causa de que tenhas condenado este homem sem haver provado que seja um adúltero, um fornicador, um homicida, um ladrão e sem que, em uma palavra, tenha cometido injustiça, mas somente porque confessou levar o nome de cristão? Tu, Urbicio, não julgas como corresponde ao imperador Pio nem ao filósofo que é o filho do César, nem tampouco ao senado sagrado.'
13.E Urbicio, sem nada responder, disse dirigindo-se também a Lúcio: 'Parece-me que também tu és cristão.' E como Lúcio respondeu: "Assim é!", mandou que também a este levassem à execução. Lúcio declarou que estava agradecido, pois - acrescentava - afastava-se de uns amos tão malvados e ia para Deus, seu bom Pai e Rei. E a um terceiro que se apresentou foi infligida a mesma pena." A isto Justino acrescentou, com razão e logicamente, as palavras que já citamos mais acima: "E eu mesmo espero ser vítima da conspiração de algum dos nomeados, etc."
Boa leitura!
1. O mesmo autor, antes de seu próprio combate, menciona em sua primeira Apologia a outros mártires anteriores a ele. Também este relato é útil para nosso intento.
2.Escreve assim: "Uma mulher vivia com seu dissoluto marido, e ela mesma havia-se dado anteriormente à vida dissoluta. Mas, depois que conheceu os ensinamentos de Cristo, aprendeu a conter-se e tratava de persuadir seu marido a tornar-se casto também, apresentando os ensinamentos e anunciando-lhe o castigo que no fogo eterno terão os que não vivem castamente e conforme a recta razão.
3.Mas ele perseverava na mesma devassidão e com suas obras seguia afastando-se de sua esposa, pois a mulher, considerando ímpio seguir compartilhando o leito com um homem que buscava recursos de prazer por todos os meios, contra a lei da natureza e contra a justiça, quis divorciar-se.
4.E como os seus lhe suplicaram e a aconselharam que aguardasse ainda, com a esperança de que o homem pudesse um dia mudar, fazendo uma violência contra si mesma, esperou.
5.Mas depois que seu marido foi para Alexandria e ela teve notícia de que ali fazia coisas piores, para evitar compartilhar com ele as injustiças e impiedades permanecendo no matrimónio e compartilhando a mesa e o leito, deu-lhe o que entre vós se chama repudium e se separou.
6.Mas o bom de seu marido, que deveria alegrar-se de que sua mulher, antes entregue à vida fácil com criados e diaristas, desfrutando de bebedeiras e todo tipo de maldades, não somente havia cessado com todas estas práticas, mas que também queria que ele deixasse de fazer o mesmo, porque havia se separado sem que ele o quisesse, vai e a acusa de ser cristã.
7.E ela apresentou a ti, imperador, um libelo em que pedia, em primeiro lugar, que lhe fosse permitido dispor de seus bens, e depois, quando seus assuntos estivessem arranjados, apresentar sua defesa frente à acusação. E tu o permitiste.
8.Mas seu ex-marido, não podendo então dizer nada contra ela, voltou-se contra um tal Ptolomeu - a quem Urbicio havia imposto um castigo - porque havia sido mestre daquela nas doutrinas cristãs. Procedeu da seguinte maneira:
9.Ao Centurião que havia aprisionado Ptolomeu, e que era seu amigo, persuadiu a que se apoderasse de Ptolomeu e lhe dirigisse esta única pergunta: se era cristão. E Ptolomeu, que amava a verdade e não tinha o carácter embusteiro nem mentiroso, confessou que era cristão. O Centurião fez com que o acorrentassem, e durante muito tempo submeteu-o a castigo no cárcere.
10.E quando por último Ptolomeu foi conduzido à presença de Urbicio, também lhe perguntaram unicamente isto: se era cristão. E novamente, consciente do bem que havia recebido por meio da doutrina de Cristo, confessou a escola da divina virtude;
11.porque quem nega algo, o que quer que seja, ou nega porque o condena, ou rejeita a confissão porque considera a si mesmo indigno e alheio a isto. Nenhum destes casos enquadra o verdadeiro cristão.
12.E quando Urbicio mandou que o levassem à execução, um tal Lúcio, que também era cristão, vendo que a sentença era dada tão contra a razão, disse dirigindo-se a Urbicio: 'Qual é a causa de que tenhas condenado este homem sem haver provado que seja um adúltero, um fornicador, um homicida, um ladrão e sem que, em uma palavra, tenha cometido injustiça, mas somente porque confessou levar o nome de cristão? Tu, Urbicio, não julgas como corresponde ao imperador Pio nem ao filósofo que é o filho do César, nem tampouco ao senado sagrado.'
13.E Urbicio, sem nada responder, disse dirigindo-se também a Lúcio: 'Parece-me que também tu és cristão.' E como Lúcio respondeu: "Assim é!", mandou que também a este levassem à execução. Lúcio declarou que estava agradecido, pois - acrescentava - afastava-se de uns amos tão malvados e ia para Deus, seu bom Pai e Rei. E a um terceiro que se apresentou foi infligida a mesma pena." A isto Justino acrescentou, com razão e logicamente, as palavras que já citamos mais acima: "E eu mesmo espero ser vítima da conspiração de algum dos nomeados, etc."
domingo, 16 de janeiro de 2011
De como Justino o Filósofo, sendo de avançada idade, sofreu martírio pela doutrina de Cristo na cidade de Roma
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1.Por este mesmo tempo287, Justino, mencionado há pouco, depois de dedicar aos supracitados imperadores seu segundo livro em defesa de nossas doutrinas, foi adornado com o sagrado martírio. O responsável pela conspiração foi o filósofo Crescente - homem que se esforçava em levar uma vida e uma conduta bem adequadas ao cognome de cínico288 -, pois Justino o havia repreendido muitas vezes em presença de seus ouvintes. Justino, com seu martírio acabou cingindo o prêmio da vitória da verdade da qual era embaixador.
2.Também isto foi previsto por ele mesmo, consumado filósofo que era, na mencionada Apologia, e tão claramente como de fato haveria de suceder-lhe. Estes são seus termos:
3."E eu mesmo espero ser vítima da conspiração de algum dos nomeados e ser agrilhoado ao cepo. Talvez por obra de Crescente, o amigo, não da sabedoria, mas da ruidosa jactância, já que não é justo chamar de filósofo um homem que em público atesta o que ignora, como quando diz que os cristãos são ateus e ímpios, fazendo assim para graça e gosto do vulgo extraviado no erro.
4.Porque, se é que nos ataca sem ter lido os ensinamentos de Cristo, é dos mais malvados e muito pior do que os ignorantes, os quais muitas vezes evitam conversar e atestar falsamente sobre o que ignoram. E se é que os leu sem entender a grandeza que há neles, ou se os entendeu, mas faz assim para não ser suspeito de ser cristão, então é muito mais ignóbil e malvado, escravo de uma opinião, ignorante e irracional, e do medo.
5.Porque quero que saibais que, havendo-lhe já proposto e feito perguntas deste gênero, dei-me conta e o convenci de que verdadeiramente não sabe nada. E como prova de que digo a verdade, se é que não vos remeteram os informes da discussão, estou disposto a fazer novamente as perguntas inclusive em vossa presença, tarefa que também seria digna de um imperador.
6.Mas se já vos são conhecidas minhas perguntas e as respostas daquele, tereis visto bem claramente que nada sabe de nossas coisas. Ou se o sabe, mas não se atreve a dizê-lo por causa dos ouvintes, como disse antes, não mostra ser um homem amante do saber, mas amante da opinião e depreciador da sentença de Sócrates289, digníssima de todo apreço".
7.Isto diz Justino. Segundo sua previsão, morreu vítima das maquinações de Crescente. Taciano, varão que em seus primeiros tempos professou as ciências helênicas, nas quais alcançou não pequena fama, e deixou em seus escritos muitos monumentos de seu engenho, narra em seu Discurso aos gregos como segue: "E o admirável Justino exclamou com toda justiça que os supracitados pareciam bandidos."
8. Depois de acrescentar algumas coisas sobre os filósofos, continua dizendo o que segue: "Crescente, pois, o que se aninhou na grande cidade, a todos suplantava como pederasta e estava inteiramente entregue ao amor do dinheiro.
9. Quem aconselhava a desprezar a morte, ele mesmo temia a morte de tal maneira que arranjou para precipitar Justino na morte, como num grande mal, porque este, pregando a verdade, havia provado que os filósofos eram uns glutões e embusteiros." Esta foi a causa do martírio de Justino.
287 Dos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Vero.
288 De "kíon" = cachorro.
289 "A verdade deve ser honrada mais do que o homem, ainda que este homem seja Homero."
Boa Leitura!
1.Por este mesmo tempo287, Justino, mencionado há pouco, depois de dedicar aos supracitados imperadores seu segundo livro em defesa de nossas doutrinas, foi adornado com o sagrado martírio. O responsável pela conspiração foi o filósofo Crescente - homem que se esforçava em levar uma vida e uma conduta bem adequadas ao cognome de cínico288 -, pois Justino o havia repreendido muitas vezes em presença de seus ouvintes. Justino, com seu martírio acabou cingindo o prêmio da vitória da verdade da qual era embaixador.
2.Também isto foi previsto por ele mesmo, consumado filósofo que era, na mencionada Apologia, e tão claramente como de fato haveria de suceder-lhe. Estes são seus termos:
3."E eu mesmo espero ser vítima da conspiração de algum dos nomeados e ser agrilhoado ao cepo. Talvez por obra de Crescente, o amigo, não da sabedoria, mas da ruidosa jactância, já que não é justo chamar de filósofo um homem que em público atesta o que ignora, como quando diz que os cristãos são ateus e ímpios, fazendo assim para graça e gosto do vulgo extraviado no erro.
4.Porque, se é que nos ataca sem ter lido os ensinamentos de Cristo, é dos mais malvados e muito pior do que os ignorantes, os quais muitas vezes evitam conversar e atestar falsamente sobre o que ignoram. E se é que os leu sem entender a grandeza que há neles, ou se os entendeu, mas faz assim para não ser suspeito de ser cristão, então é muito mais ignóbil e malvado, escravo de uma opinião, ignorante e irracional, e do medo.
5.Porque quero que saibais que, havendo-lhe já proposto e feito perguntas deste gênero, dei-me conta e o convenci de que verdadeiramente não sabe nada. E como prova de que digo a verdade, se é que não vos remeteram os informes da discussão, estou disposto a fazer novamente as perguntas inclusive em vossa presença, tarefa que também seria digna de um imperador.
6.Mas se já vos são conhecidas minhas perguntas e as respostas daquele, tereis visto bem claramente que nada sabe de nossas coisas. Ou se o sabe, mas não se atreve a dizê-lo por causa dos ouvintes, como disse antes, não mostra ser um homem amante do saber, mas amante da opinião e depreciador da sentença de Sócrates289, digníssima de todo apreço".
7.Isto diz Justino. Segundo sua previsão, morreu vítima das maquinações de Crescente. Taciano, varão que em seus primeiros tempos professou as ciências helênicas, nas quais alcançou não pequena fama, e deixou em seus escritos muitos monumentos de seu engenho, narra em seu Discurso aos gregos como segue: "E o admirável Justino exclamou com toda justiça que os supracitados pareciam bandidos."
8. Depois de acrescentar algumas coisas sobre os filósofos, continua dizendo o que segue: "Crescente, pois, o que se aninhou na grande cidade, a todos suplantava como pederasta e estava inteiramente entregue ao amor do dinheiro.
9. Quem aconselhava a desprezar a morte, ele mesmo temia a morte de tal maneira que arranjou para precipitar Justino na morte, como num grande mal, porque este, pregando a verdade, havia provado que os filósofos eram uns glutões e embusteiros." Esta foi a causa do martírio de Justino.
287 Dos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Vero.
288 De "kíon" = cachorro.
289 "A verdade deve ser honrada mais do que o homem, ainda que este homem seja Homero."
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
De como, nos tempos de Vero, Policarpo sofreu o martírio junto com outros da cidade de Esmirna
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Desculpem não ter avisado aqui neste blog, que ia entrar em recesso durante estes dias que passaram!
Boa Leitura!
1.Neste tempo279 morreu mártir Policarpo, quando enormes perseguições estavam perturbando a Ásia. Creio ser muito necessário incluir na narrativa da presente história o relato de seu fim, ainda conservado por escrito.
2.A carta está escrita em nome da Igreja que ele governava, para as igrejas de (todo)280 lugar e declara o que se refere a ele nos seguintes termos:
3."A igreja de Deus que peregrina281 em Esmirna à igreja de Deus que reside como forasteira em Filomelio e a todas as comunidades da santa Igreja católica, forasteiras em todo lugar: a misericórdia, a paz e o amor de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo se multipliquem. Nós vos escrevemos, irmãos, o que se refere aos que sofreram martírio e ao bem-aventurado Policarpo, que com seu martírio, como se houvesse posto seu selo, fez cessar a perseguição."
4.Em continuação, e antes de referir-se a Policarpo, narram o referente aos mártires e descrevem a constância que mostraram ante os tormentos, pois contam que foram motivo de assombro para os que formavam círculo em torno deles e os contemplavam, ora dilacerados por açoites até o mais profundo de suas veias e artérias, de forma que podiam observar os órgãos de seus corpos, suas entranhas e seus membros, ora a outros, estendidos sobre conchas marinhas e pontas afiadas, e entregues por fim como pasto às feras, depois de ter passado por castigos e tormentos de toda espécie.
5.E contam que distinguiu-se especialmente o nobilíssimo Germânico, que com a ajuda da graça divina sobrepôs-se à covardia natural ante a morte do corpo. O Pro-cônsul queria persuadi-lo e alegava como pretexto sua idade, e suplicava-lhe que, já que estava na flor da juventude, tivesse compaixão de si mesmo; mas ele não vacilou, mas valentemente atraiu para si as feras, quase forçando-as e atiçando-as, para poder afastar-se mais rapidamente da vida injusta e criminosa daqueles.
6.Ante a gloriosa morte deste homem, a multidão toda pasmou-se vendo a valentia do mártir divino e a virtude de toda a linhagem dos cristãos, e todos a uma voz começaram a gritar: "Morram os ateus! Que se busque Policarpo!"
7.Tendo-se criado com a gritaria uma grande confusão, certo homem da Frigia, chamado Quinto, recentemente chegado da Frigia, ao ver as feras e tudo o mais que o ameaçava, sentiu enfraquecer-se a alma presa do medo e terminou por abandonar sua salvação.
8.Mas o relato do escrito acima demonstra que este homem lançou-se ante o tribunal de forma demasiado precipitada e sem a devida cautela. Assim pois, uma vez preso, proporcionou a todos um exemplo manifesto de que não é lícito arriscar-se em tais empresas temerária e incautamente. Assim terminava o que se referia a estes homens.
9.Quanto ao admirável Policarpo, quando ouviu estas coisas não se perturbou; seguiu observando firme e imutável seus costumes e queria permanecer ali, na cidade. Mas persuadido pelas súplicas dos que o rodeavam e pelos que o exortavam a afastar-se secretamente, retirou-se a uma propriedade não muito distante da cidade, e ali passava seu tempo em companhia de uns poucos, não fazendo outra coisa, noite e dia, que perseverar na oração ao Senhor. Nela pedia e suplicava pela paz, pedindo-a para as igrejas de todo o universo, o que aliás sempre fora costume seu.
10.E foi enquanto orava, numa visão que teve à noite três dias antes de sua prisão, quando viu que o travesseiro de sua cabeceira se consumia completamente abrasado pelo fogo. Despertado pelo facto, logo interpretou para os presentes o ocorrido, quase adivinhando o futuro, e anunciou claramente aos circunstantes que ele haveria de morrer por Cristo no fogo.
11.Assim pois, quando os que o procuravam com toda presteza já se achavam próximos, diz-se que ele se mudou para outro sítio, forçado novamente pela disposição e o amor dos irmãos, e ali apareceram pouco depois os perseguidores, que detiveram dois criados. Submeteram um deles a torturas e assim chegaram ao paradeiro de Policarpo.
12.Como chegaram a uma hora tardia, encontraram-no deitado num cómodo do piso superior, de onde era possível passar para outra casa; mas ele não quis fazê-lo e disse: "Cumpra-se a vontade de Deus."
13.Efectivamente, quando soube que estavam ali - como diz o relato —, desceu e pôs-se a conversar com eles, com o rosto radiante e cheio de suavidade, de forma que aqueles que antes não o conheciam acreditavam estar vendo um prodígio, ao considerar sua avançada idade e seu porte venerável e firme, e se admiravam de tanto esforço para prender um ancião.
14.Mas ele, sem tardar, manda que lhes ponham a mesa; logo convida-os a participar de abundante jantar e pede-lhes apenas uma hora para orar tranquilo. Como eles o permitiram, levantou-se e posse a orar, cheio da graça de Deus. Os presentes estavam assombrados ouvindo-o rezar, e muitos deles arrependeram-se já de que tivesse que ser executado um ancião tão venerável e digno de Deus.
15.Depois do que foi dito, o escrito que trata dele continua a narrativa literalmente como segue: "Quando terminou sua oração, depois de fazer memória de todos com quem havia tratado em sua vida, pequenos e grandes, ilustres e plebeus, e de toda a Igreja católica espalhada por toda a terra habitada, quando chegou a hora de partir, sentaram-no no lombo de um asno e conduziram-no à cidade. Era dia de grande sábado. Foram ao encontro do irenarca282 Herodes e seu pai, Nicetas, fizeram-no subir em seu carro, sentaram-no a seu lado e trataram de persuadi-lo dizendo: "Mas que há de mal em dizer: César é o Senhor! E em sacrificar, e com isto salvar a vida?"
16."Policarpo a princípio não respondia, mas como insistissem, disse: "Não tenho intenção de fazer o que me aconselhais.' Como não conseguiram seu intento, começaram a dizer-lhe palavras terríveis e fizeram-no descer a toda pressa, tanto que ao descer do carro arranhou a perna. Mas ele, sem virar-se, como se nada tivesse lhe acontecido, pôs-se animadamente a caminhar com pressa, conduzido ao estádio.
17.Era tal o ruído no estádio, que muitos não podiam ouvir. Entrando Policarpo no estádio, sobreveio uma voz do céu: 'Sê forte, Policarpo, e porta-te como homem.' Ninguém viu quem falou, mas muitos dos nossos ouviram a voz.
18.Quando o 'conduziam armou-se grande tumulto por parte dos que perceberam que haviam prendido Policarpo. Logo, quando se aproximou, perguntou-lhe o pro-cônsul se ele era Policarpo. Tendo ele confessado, aquele tentou persuadi-lo a que renegasse, dizendo: 'Tenha consideração a tua idade', e outras coisas parecidas a estas, como tem costume de dizer: 'Jura pelo gênio do César. Muda de pensar.' Diga: 'Morram os ateus!'
19.Mas Policarpo olhou com rosto severo a toda a turba que se encontrava no estádio, agitou para eles sua mão e, entre soluços e levantando a vista ao céu, disse: 'Morram os ateus!'
20.Mas quando o governador lhe pediu e disse: 'Jura e te soltarei; maldiz a Cristo', Policarpo disse: 'Oitenta e sei anos venho servindo-o e nenhum mal me fez. Como posso blasfemar contra meu rei, que me salvou?'
21.Como o pro-cônsul insistisse novamente e dissesse: 'Jura pela sorte do César', Policarpo respondeu: "Se abrigas a vã pretensão de que eu jure pelo génio do César, como dizes, fingindo que ignoras quem sou eu, com franqueza, escuta: sou cristão. Mas se é que queres aprender a doutrina do cristianismo, dá-me um dia e escuta".
22.Disse o pro-cônsul: "Convence ao povo". Policarpo replicou: "A ti considero digno do meu discurso, pois nos é ensinado render as honras devidas às autoridades e potestades estabelecidas por Deus283, enquanto não seja em detrimento nosso; mas a estes não os considero dignos de que me defenda perante eles.'
23.E o pro-cônsul disse: 'Tenho feras. A elas te lançarei se não mudas tua posição.' Mas ele respondeu: 'Chama-as, porque para nós não é possível mudar de posição se é do melhor para o pior. O bom é mudar do mau para o justo.'
24.Insistiu o pro-cônsul: 'Como não te arrependes, farei com que o fogo te dome se desprezas as feras'. Policarpo disse: "Ameaças com um fogo que arde algum tempo, mas depois de um pouco se apaga. E ignoras o fogo do juízo futuro e do castigo eterno, reservado aos ímpios. Mas, por que tardas? Traga o que quiseres.'
25.Enquanto dizia isto e muitas outras coisas mais, enchia-se de valor e de alegria, e seu rosto transbordava de graça, ao ponto de que não somente não caiu em confusão pelas coisas que lhe diziam, mas pelo contrário, foi o pro-cônsul que ficou fora de si e chamou o arauto para que no meio do estádio apregoasse três vezes: 'Policarpo confessou que é cristão.'
26.Quando o arauto disse isso, toda a turba de gentios e de judeus que habitavam Esmirna se pôs a gritar com ânimo exaltado e grande vozerio: 'Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, o que ensinou a muitos a não sacrificar e a não adorar.'
27.Enquanto diziam isto, gritavam mais e mais, e pediam ao asiarca284 Felipe que lançasse um leão contra Policarpo. Disse ele que não podia, por estar terminado o combate de feras. Então acharam por bem gritar juntos que Policarpo fosse queimado vivo.
28.E devia cumprir-se a visão que teve de seu travesseiro quando, enquanto orava, viu que se consumia abrasado, e voltando-se para os fiéis que estavam com ele, disse-lhes em tom profético: 'Devo ser queimado vivo.'
29.Isto se fez mais depressa do que foi dito. A turba arrancou das oficinas e dos banhos a madeira e lenha miúda. Os mais entusiásticos em colaborar com a tarefa foram, como de costume, os judeus.
30.Quando a fogueira estava pronta, Policarpo despojou-se de todas suas roupas e, descingindo-se, tratou de soltar também seu calçado, coisa que antes não fazia pois cada fiel sempre se esforçava para ser o primeiro a tocar sua pele; porque a todo momento, antes mesmo de ter os cabelos brancos, havia sido honrado por causa de sua santa vida.
31.Em seguida foram colocando a sua volta os instrumentos preparados para a fogueira, mas quando já iam pregá-lo, disse-lhes: "Deixai-me assim, pois quem me dá esperar com pés firmes o fogo, me dará também, sem que seja necessária a segurança de vossos pregos, o manter-me firme na fogueira.' E não o pregaram, mas amarraram-no.
32.Com as mãos às costas e amarrado como um carneiro escolhido que é tirado de um grande rebanho como holocausto aceitável a Deus Todo-poderoso, disse:
33.'Pai de teu amado e bendito Filho Jesus Cristo, por quem recebemos o conhecimento acerca de ti, Deus dos anjos, das potestades, de toda a criação e de toda a raça dos justos que vivem em tua presença: Bendigo-te porque me julgaste digno deste dia e desta hora, para ter parte, entre o número dos mártires, no cálice de teu Cristo para ressurreição na vida eterna, tanto da alma como do corpo, na integridade do Espírito Santo.
34.Oxalá seja eu recebido em tua presença hoje, com eles, em sacrifício pio e aceitável!, segundo preparaste de antemão, como de antemão o manifestaste e o cumpriste, ó Deus sem mentira e verdadeiro!
35.Por esta razão, e por todas as coisas, te louvo, te bendigo, te glorifico, por meio do eterno e sumo sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja a glória a ti, com Ele no Espírito Santo, agora e nos séculos vindouros. Amém.'
36.Quando pronunciou o Amém e terminou sua oração, os encarregados do fogo acenderam-no, mas,
37.Ocorreu que o fogo, formando uma espécie de abóbada, como a vela de um navio enchida pelo vento, protegeu o corpo do mártir como uma muralha em torno. E ele estava no meio, não como carne queimada, mas como ouro e prata candentes no forno. E nós, em verdade, sentíamos uma fragrância tal, como exalada pelo incenso ou por qualquer outro aroma precioso.
38.Ao fim, vendo aqueles ímpios que o corpo não podia ser consumido pelo fogo, ordenaram ao confector285 que se aproximasse e cravasse nele sua espada;
39.feito isto, brotou um caudal de sangue tão grande que apagou o fogo e deixou assombrada a multidão que via a grande diferença entre os infiéis e os eleitos. Um destes foi este homem, admirável em demasia, mestre apostólico e profético de nossos dias, bispo que foi da igreja católica de Esmirna. Efectivamente, toda palavra que saiu de sua boca se cumpriu e se cumprirá.
40.Mas o rival e invejoso maligno, adversário da raça dos justos, ao ver a grandeza de seu martírio e a vida irrepreensível que havia levado desde o princípio e que já estava coroado com a coroa da integridade e já tinha alcançado um prémio indiscutível, dispôs as coisas de tal maneira que nós não recolhemos seu corpo, mesmo sendo muitos os que desejavam fazê-lo e ter parte em seus santos despojos.
41.Alguns pois, sugeriram a Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, solicitar do governador que não entregasse o corpo do mártir, 'não ocorra que -disse - deixando o crucificado, comecem a render culto a este'. E diziam isto por sugestão e por pressão dos judeus, que também vigiavam quando nós íamos recolhê-lo da fogueira. Pois ignoram que nós jamais poderemos abandonar a Cristo, que padeceu pela salvação de todos os que no mundo inteiro se salvam, nem render culto a nenhum outro.
42.Porque a este adoramos por ser Filho de Deus; aos mártires, por outro lado, amamos justamente porque são discípulos e imitadores do Senhor, por causa de sua insuperável benevolência para com seu próprio rei e mestre. Oxalá também nós fôssemos participes de sua sorte e seus condiscípulos!
43.Vendo pois o Centurião a insistência dos judeus, pôs o corpo no meio, como de costume, e queimouo. E assim nós logo retiramos seus ossos, mais estimáveis que as pedras preciosas e mais dourados do que o ouro, e os guardamos em lugar conveniente.
44.Ali, reunidos enquanto nos seja possível, jubilosos e alegres, o Senhor nos concederá celebrar o aniversário de seu martírio, para memória dos que lutaram e para exercício e preparação dos que terão que lutar.
45.Este foi o final do bem-aventurado Policarpo. Ainda que sejam doze o número dos martirizados em Esmirna, junto com os de Filadélfia, ele é o único de quem todos mais se recordam, ao ponto de que inclusive os pagãos estão falando dele em todas as partes."
46.Deste final fez-se digno o admirável e apostólico Policarpo, cujo relato foi exposto pelos irmãos da igreja de Esmirna na carta deles que citamos. Neste mesmo escrito que trata dele estão juntos outros martírios que tiveram lugar na mesma Esmirna na mesma época que o martírio de Policarpo. Com eles pereceu também, entregue às chamas, Metrodoro, que se acredita que fosse presbítero da seita de Márcion.
47.Mas o mártir mais famoso dos de então foi Pionio. Suas sucessivas confissões, sua liberdade de expressão, suas apologias da fé em presença do povo e das autoridades, seus discursos didáticos ao povo e ainda sua amável acolhida aos que haviam sucumbido na prova da perseguição, assim como as exortações que, estando no cárcere, dirigia aos irmãos que a ele acudiam, e também os tormentos que depois sofreu, os suplícios que se juntaram, seu encravamento, sua integridade na fogueira e, depois de todas estas maravilhas, sua morte: tudo isto está contido de maneira muito completa no escrito que dele trata286. A ele remetemos quem se interessar: acha-se incluído entre os martírios dos antigos, por nós recompilados.
48.Conservam-se também as atas de outros mártires que foram martirizados em Pérgamo, cidade da Ásia: Carpo, Papilo e uma mulher, Agatonice, que acabaram gloriosamente depois de muitas e ilustres confissões.
279 Tempos de Marco Aurélio.
280 O original não tem a palavra "todo", mas esta aparece no endereçamento da carta abaixo.
281 Usa-se o termo "peregrino" ou "forasteiro" para expressar a condição do cristão como estando de passagem por
este mundo.
282 Espécie de comissário de polícia nomeado pelo procônsul para guardar a ordem pública nas cidades.
283 Rm 13:1; I Pe 2:13.
284 Presidente do concilio da província da Ásia, e como tal, sumo sacerdote e diretor dos jogos públicos.
fazendo-se uma grande chama, vimos um prodígio, aqueles aos quais foi dado vê-lo e que fomos
conservados para anunciar aos demais o ocorrido.
285 O confector era quem dava o golpe de misericórdia aos homens e às feras ao fim dos combates.
286 As Atas de Pionio.
Desculpem não ter avisado aqui neste blog, que ia entrar em recesso durante estes dias que passaram!
Boa Leitura!
1.Neste tempo279 morreu mártir Policarpo, quando enormes perseguições estavam perturbando a Ásia. Creio ser muito necessário incluir na narrativa da presente história o relato de seu fim, ainda conservado por escrito.
2.A carta está escrita em nome da Igreja que ele governava, para as igrejas de (todo)280 lugar e declara o que se refere a ele nos seguintes termos:
3."A igreja de Deus que peregrina281 em Esmirna à igreja de Deus que reside como forasteira em Filomelio e a todas as comunidades da santa Igreja católica, forasteiras em todo lugar: a misericórdia, a paz e o amor de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo se multipliquem. Nós vos escrevemos, irmãos, o que se refere aos que sofreram martírio e ao bem-aventurado Policarpo, que com seu martírio, como se houvesse posto seu selo, fez cessar a perseguição."
4.Em continuação, e antes de referir-se a Policarpo, narram o referente aos mártires e descrevem a constância que mostraram ante os tormentos, pois contam que foram motivo de assombro para os que formavam círculo em torno deles e os contemplavam, ora dilacerados por açoites até o mais profundo de suas veias e artérias, de forma que podiam observar os órgãos de seus corpos, suas entranhas e seus membros, ora a outros, estendidos sobre conchas marinhas e pontas afiadas, e entregues por fim como pasto às feras, depois de ter passado por castigos e tormentos de toda espécie.
5.E contam que distinguiu-se especialmente o nobilíssimo Germânico, que com a ajuda da graça divina sobrepôs-se à covardia natural ante a morte do corpo. O Pro-cônsul queria persuadi-lo e alegava como pretexto sua idade, e suplicava-lhe que, já que estava na flor da juventude, tivesse compaixão de si mesmo; mas ele não vacilou, mas valentemente atraiu para si as feras, quase forçando-as e atiçando-as, para poder afastar-se mais rapidamente da vida injusta e criminosa daqueles.
6.Ante a gloriosa morte deste homem, a multidão toda pasmou-se vendo a valentia do mártir divino e a virtude de toda a linhagem dos cristãos, e todos a uma voz começaram a gritar: "Morram os ateus! Que se busque Policarpo!"
7.Tendo-se criado com a gritaria uma grande confusão, certo homem da Frigia, chamado Quinto, recentemente chegado da Frigia, ao ver as feras e tudo o mais que o ameaçava, sentiu enfraquecer-se a alma presa do medo e terminou por abandonar sua salvação.
8.Mas o relato do escrito acima demonstra que este homem lançou-se ante o tribunal de forma demasiado precipitada e sem a devida cautela. Assim pois, uma vez preso, proporcionou a todos um exemplo manifesto de que não é lícito arriscar-se em tais empresas temerária e incautamente. Assim terminava o que se referia a estes homens.
9.Quanto ao admirável Policarpo, quando ouviu estas coisas não se perturbou; seguiu observando firme e imutável seus costumes e queria permanecer ali, na cidade. Mas persuadido pelas súplicas dos que o rodeavam e pelos que o exortavam a afastar-se secretamente, retirou-se a uma propriedade não muito distante da cidade, e ali passava seu tempo em companhia de uns poucos, não fazendo outra coisa, noite e dia, que perseverar na oração ao Senhor. Nela pedia e suplicava pela paz, pedindo-a para as igrejas de todo o universo, o que aliás sempre fora costume seu.
10.E foi enquanto orava, numa visão que teve à noite três dias antes de sua prisão, quando viu que o travesseiro de sua cabeceira se consumia completamente abrasado pelo fogo. Despertado pelo facto, logo interpretou para os presentes o ocorrido, quase adivinhando o futuro, e anunciou claramente aos circunstantes que ele haveria de morrer por Cristo no fogo.
11.Assim pois, quando os que o procuravam com toda presteza já se achavam próximos, diz-se que ele se mudou para outro sítio, forçado novamente pela disposição e o amor dos irmãos, e ali apareceram pouco depois os perseguidores, que detiveram dois criados. Submeteram um deles a torturas e assim chegaram ao paradeiro de Policarpo.
12.Como chegaram a uma hora tardia, encontraram-no deitado num cómodo do piso superior, de onde era possível passar para outra casa; mas ele não quis fazê-lo e disse: "Cumpra-se a vontade de Deus."
13.Efectivamente, quando soube que estavam ali - como diz o relato —, desceu e pôs-se a conversar com eles, com o rosto radiante e cheio de suavidade, de forma que aqueles que antes não o conheciam acreditavam estar vendo um prodígio, ao considerar sua avançada idade e seu porte venerável e firme, e se admiravam de tanto esforço para prender um ancião.
14.Mas ele, sem tardar, manda que lhes ponham a mesa; logo convida-os a participar de abundante jantar e pede-lhes apenas uma hora para orar tranquilo. Como eles o permitiram, levantou-se e posse a orar, cheio da graça de Deus. Os presentes estavam assombrados ouvindo-o rezar, e muitos deles arrependeram-se já de que tivesse que ser executado um ancião tão venerável e digno de Deus.
15.Depois do que foi dito, o escrito que trata dele continua a narrativa literalmente como segue: "Quando terminou sua oração, depois de fazer memória de todos com quem havia tratado em sua vida, pequenos e grandes, ilustres e plebeus, e de toda a Igreja católica espalhada por toda a terra habitada, quando chegou a hora de partir, sentaram-no no lombo de um asno e conduziram-no à cidade. Era dia de grande sábado. Foram ao encontro do irenarca282 Herodes e seu pai, Nicetas, fizeram-no subir em seu carro, sentaram-no a seu lado e trataram de persuadi-lo dizendo: "Mas que há de mal em dizer: César é o Senhor! E em sacrificar, e com isto salvar a vida?"
16."Policarpo a princípio não respondia, mas como insistissem, disse: "Não tenho intenção de fazer o que me aconselhais.' Como não conseguiram seu intento, começaram a dizer-lhe palavras terríveis e fizeram-no descer a toda pressa, tanto que ao descer do carro arranhou a perna. Mas ele, sem virar-se, como se nada tivesse lhe acontecido, pôs-se animadamente a caminhar com pressa, conduzido ao estádio.
17.Era tal o ruído no estádio, que muitos não podiam ouvir. Entrando Policarpo no estádio, sobreveio uma voz do céu: 'Sê forte, Policarpo, e porta-te como homem.' Ninguém viu quem falou, mas muitos dos nossos ouviram a voz.
18.Quando o 'conduziam armou-se grande tumulto por parte dos que perceberam que haviam prendido Policarpo. Logo, quando se aproximou, perguntou-lhe o pro-cônsul se ele era Policarpo. Tendo ele confessado, aquele tentou persuadi-lo a que renegasse, dizendo: 'Tenha consideração a tua idade', e outras coisas parecidas a estas, como tem costume de dizer: 'Jura pelo gênio do César. Muda de pensar.' Diga: 'Morram os ateus!'
19.Mas Policarpo olhou com rosto severo a toda a turba que se encontrava no estádio, agitou para eles sua mão e, entre soluços e levantando a vista ao céu, disse: 'Morram os ateus!'
20.Mas quando o governador lhe pediu e disse: 'Jura e te soltarei; maldiz a Cristo', Policarpo disse: 'Oitenta e sei anos venho servindo-o e nenhum mal me fez. Como posso blasfemar contra meu rei, que me salvou?'
21.Como o pro-cônsul insistisse novamente e dissesse: 'Jura pela sorte do César', Policarpo respondeu: "Se abrigas a vã pretensão de que eu jure pelo génio do César, como dizes, fingindo que ignoras quem sou eu, com franqueza, escuta: sou cristão. Mas se é que queres aprender a doutrina do cristianismo, dá-me um dia e escuta".
22.Disse o pro-cônsul: "Convence ao povo". Policarpo replicou: "A ti considero digno do meu discurso, pois nos é ensinado render as honras devidas às autoridades e potestades estabelecidas por Deus283, enquanto não seja em detrimento nosso; mas a estes não os considero dignos de que me defenda perante eles.'
23.E o pro-cônsul disse: 'Tenho feras. A elas te lançarei se não mudas tua posição.' Mas ele respondeu: 'Chama-as, porque para nós não é possível mudar de posição se é do melhor para o pior. O bom é mudar do mau para o justo.'
24.Insistiu o pro-cônsul: 'Como não te arrependes, farei com que o fogo te dome se desprezas as feras'. Policarpo disse: "Ameaças com um fogo que arde algum tempo, mas depois de um pouco se apaga. E ignoras o fogo do juízo futuro e do castigo eterno, reservado aos ímpios. Mas, por que tardas? Traga o que quiseres.'
25.Enquanto dizia isto e muitas outras coisas mais, enchia-se de valor e de alegria, e seu rosto transbordava de graça, ao ponto de que não somente não caiu em confusão pelas coisas que lhe diziam, mas pelo contrário, foi o pro-cônsul que ficou fora de si e chamou o arauto para que no meio do estádio apregoasse três vezes: 'Policarpo confessou que é cristão.'
26.Quando o arauto disse isso, toda a turba de gentios e de judeus que habitavam Esmirna se pôs a gritar com ânimo exaltado e grande vozerio: 'Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, o que ensinou a muitos a não sacrificar e a não adorar.'
27.Enquanto diziam isto, gritavam mais e mais, e pediam ao asiarca284 Felipe que lançasse um leão contra Policarpo. Disse ele que não podia, por estar terminado o combate de feras. Então acharam por bem gritar juntos que Policarpo fosse queimado vivo.
28.E devia cumprir-se a visão que teve de seu travesseiro quando, enquanto orava, viu que se consumia abrasado, e voltando-se para os fiéis que estavam com ele, disse-lhes em tom profético: 'Devo ser queimado vivo.'
29.Isto se fez mais depressa do que foi dito. A turba arrancou das oficinas e dos banhos a madeira e lenha miúda. Os mais entusiásticos em colaborar com a tarefa foram, como de costume, os judeus.
30.Quando a fogueira estava pronta, Policarpo despojou-se de todas suas roupas e, descingindo-se, tratou de soltar também seu calçado, coisa que antes não fazia pois cada fiel sempre se esforçava para ser o primeiro a tocar sua pele; porque a todo momento, antes mesmo de ter os cabelos brancos, havia sido honrado por causa de sua santa vida.
31.Em seguida foram colocando a sua volta os instrumentos preparados para a fogueira, mas quando já iam pregá-lo, disse-lhes: "Deixai-me assim, pois quem me dá esperar com pés firmes o fogo, me dará também, sem que seja necessária a segurança de vossos pregos, o manter-me firme na fogueira.' E não o pregaram, mas amarraram-no.
32.Com as mãos às costas e amarrado como um carneiro escolhido que é tirado de um grande rebanho como holocausto aceitável a Deus Todo-poderoso, disse:
33.'Pai de teu amado e bendito Filho Jesus Cristo, por quem recebemos o conhecimento acerca de ti, Deus dos anjos, das potestades, de toda a criação e de toda a raça dos justos que vivem em tua presença: Bendigo-te porque me julgaste digno deste dia e desta hora, para ter parte, entre o número dos mártires, no cálice de teu Cristo para ressurreição na vida eterna, tanto da alma como do corpo, na integridade do Espírito Santo.
34.Oxalá seja eu recebido em tua presença hoje, com eles, em sacrifício pio e aceitável!, segundo preparaste de antemão, como de antemão o manifestaste e o cumpriste, ó Deus sem mentira e verdadeiro!
35.Por esta razão, e por todas as coisas, te louvo, te bendigo, te glorifico, por meio do eterno e sumo sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja a glória a ti, com Ele no Espírito Santo, agora e nos séculos vindouros. Amém.'
36.Quando pronunciou o Amém e terminou sua oração, os encarregados do fogo acenderam-no, mas,
37.Ocorreu que o fogo, formando uma espécie de abóbada, como a vela de um navio enchida pelo vento, protegeu o corpo do mártir como uma muralha em torno. E ele estava no meio, não como carne queimada, mas como ouro e prata candentes no forno. E nós, em verdade, sentíamos uma fragrância tal, como exalada pelo incenso ou por qualquer outro aroma precioso.
38.Ao fim, vendo aqueles ímpios que o corpo não podia ser consumido pelo fogo, ordenaram ao confector285 que se aproximasse e cravasse nele sua espada;
39.feito isto, brotou um caudal de sangue tão grande que apagou o fogo e deixou assombrada a multidão que via a grande diferença entre os infiéis e os eleitos. Um destes foi este homem, admirável em demasia, mestre apostólico e profético de nossos dias, bispo que foi da igreja católica de Esmirna. Efectivamente, toda palavra que saiu de sua boca se cumpriu e se cumprirá.
40.Mas o rival e invejoso maligno, adversário da raça dos justos, ao ver a grandeza de seu martírio e a vida irrepreensível que havia levado desde o princípio e que já estava coroado com a coroa da integridade e já tinha alcançado um prémio indiscutível, dispôs as coisas de tal maneira que nós não recolhemos seu corpo, mesmo sendo muitos os que desejavam fazê-lo e ter parte em seus santos despojos.
41.Alguns pois, sugeriram a Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, solicitar do governador que não entregasse o corpo do mártir, 'não ocorra que -disse - deixando o crucificado, comecem a render culto a este'. E diziam isto por sugestão e por pressão dos judeus, que também vigiavam quando nós íamos recolhê-lo da fogueira. Pois ignoram que nós jamais poderemos abandonar a Cristo, que padeceu pela salvação de todos os que no mundo inteiro se salvam, nem render culto a nenhum outro.
42.Porque a este adoramos por ser Filho de Deus; aos mártires, por outro lado, amamos justamente porque são discípulos e imitadores do Senhor, por causa de sua insuperável benevolência para com seu próprio rei e mestre. Oxalá também nós fôssemos participes de sua sorte e seus condiscípulos!
43.Vendo pois o Centurião a insistência dos judeus, pôs o corpo no meio, como de costume, e queimouo. E assim nós logo retiramos seus ossos, mais estimáveis que as pedras preciosas e mais dourados do que o ouro, e os guardamos em lugar conveniente.
44.Ali, reunidos enquanto nos seja possível, jubilosos e alegres, o Senhor nos concederá celebrar o aniversário de seu martírio, para memória dos que lutaram e para exercício e preparação dos que terão que lutar.
45.Este foi o final do bem-aventurado Policarpo. Ainda que sejam doze o número dos martirizados em Esmirna, junto com os de Filadélfia, ele é o único de quem todos mais se recordam, ao ponto de que inclusive os pagãos estão falando dele em todas as partes."
46.Deste final fez-se digno o admirável e apostólico Policarpo, cujo relato foi exposto pelos irmãos da igreja de Esmirna na carta deles que citamos. Neste mesmo escrito que trata dele estão juntos outros martírios que tiveram lugar na mesma Esmirna na mesma época que o martírio de Policarpo. Com eles pereceu também, entregue às chamas, Metrodoro, que se acredita que fosse presbítero da seita de Márcion.
47.Mas o mártir mais famoso dos de então foi Pionio. Suas sucessivas confissões, sua liberdade de expressão, suas apologias da fé em presença do povo e das autoridades, seus discursos didáticos ao povo e ainda sua amável acolhida aos que haviam sucumbido na prova da perseguição, assim como as exortações que, estando no cárcere, dirigia aos irmãos que a ele acudiam, e também os tormentos que depois sofreu, os suplícios que se juntaram, seu encravamento, sua integridade na fogueira e, depois de todas estas maravilhas, sua morte: tudo isto está contido de maneira muito completa no escrito que dele trata286. A ele remetemos quem se interessar: acha-se incluído entre os martírios dos antigos, por nós recompilados.
48.Conservam-se também as atas de outros mártires que foram martirizados em Pérgamo, cidade da Ásia: Carpo, Papilo e uma mulher, Agatonice, que acabaram gloriosamente depois de muitas e ilustres confissões.
279 Tempos de Marco Aurélio.
280 O original não tem a palavra "todo", mas esta aparece no endereçamento da carta abaixo.
281 Usa-se o termo "peregrino" ou "forasteiro" para expressar a condição do cristão como estando de passagem por
este mundo.
282 Espécie de comissário de polícia nomeado pelo procônsul para guardar a ordem pública nas cidades.
283 Rm 13:1; I Pe 2:13.
284 Presidente do concilio da província da Ásia, e como tal, sumo sacerdote e diretor dos jogos públicos.
fazendo-se uma grande chama, vimos um prodígio, aqueles aos quais foi dado vê-lo e que fomos
conservados para anunciar aos demais o ocorrido.
285 O confector era quem dava o golpe de misericórdia aos homens e às feras ao fim dos combates.
286 As Atas de Pionio.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Da Apologia de Justino dirigida a Antonino
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1. "Ao imperador Tito Elio Adriano Antonino Pio César Augusto, e a Veríssimo274, seu filho, filósofo, e a Lúcio, filho por natureza do césar, filósofo, e de Pio por adopção, amante do saber, e ao sagrado senado e a todo o povo romano, em favor dos homens de toda raça injustamente odiados e caluniados: Eu, Justino, filho de Prisco, que o era por sua vez de Bacquio, oriundo de Flavia Neápolis, da Síria, Palestina, e um deles, compus este discurso e esta súplica." O próprio imperador foi solicitado também por outros irmãos da Ásia, importunados com toda sorte de insolência pela população local, e julgou bom enviar ao concilio da Ásia o seguinte transcrito:
Uma carta de Antonino ao concilio da Ásia sobre a nossa doutrina
1."O imperador César Marco Aurélio Antonino Augusto Arménio, pontífice máximo, tribuno da plebe pela décima quinta vez, cônsul por três vezes, ao concilio da Ásia, saudações275;
2.Eu sei que também os deuses se ocupam de que estes não permaneçam ocultos. Efectivamente, eles castigariam muito mais do que vós aos que não queiram adorá-los.
3."A estes estais empurrando para a agitação, uma vez que os confirmais na doutrina que professam acusando-os de ateus. Para eles seria preferível, assim acusados, parecer que morreram por seu próprio Deus a seguir vivendo. Por isso inclusive estão vencendo, porque entregam suas próprias vidas em vez de obedecer ao que vós pretendeis que façam.
4.Quanto aos terremotos passados e actuais, não será demais recordar-vos que vos sentis acovardados quando chegam, e comparais nossa situação à sua.
5.Eles, efectivamente, têm muito maior confiança em Deus, enquanto que vós, em todo o tempo pareceis estar em completa ignorância, descuidais dos outros deuses e do culto ao imortal. Os cristãos o adoram, e vós os maltratais e perseguis até a morte.
6.Em favor destes já escreveram a nosso diviníssimo pai276 muitos governadores das províncias, aos quais respondeu que em nada fossem aqueles molestados, a não ser que fosse evidente que empreendiam algo contra o poder público de Roma. Também a mim muitos me falaram sobre eles, e também respondi seguindo o parecer de meu pai.
7.Mas se alguém persistir em levar algum deles ao tribunal apenas por ser deles, fique o acusado livre de encargos, ainda que seja evidente que é cristão; por outro lado, o acusador ficará sujeito a castigo. "Publicado em Éfeso, no concilio da Ásia."
8.Que assim sucederam as coisas é atestado pelo bispo da igreja de Sardes, Meliton, célebre naquela época, pelo que se percebe na Apologia que dirigiu ao imperador Vero em favor de nossa doutrina.
274 O futuro imperador Marco Aurélio.
275 Eusébio não chega a se entender com os nomes nem com os títulos dos imperadores, pois anuncia uma carta de Antonino mas o cabeçalho é de Marco Aurélio, e ainda assim com falhas.
276 Se a carta é de Marco Aurélio, como indica o cabeçalho, refere-se a Antonino, mas se o autor é Antonino, alude a Adriano.
Boa Leitura!
1. "Ao imperador Tito Elio Adriano Antonino Pio César Augusto, e a Veríssimo274, seu filho, filósofo, e a Lúcio, filho por natureza do césar, filósofo, e de Pio por adopção, amante do saber, e ao sagrado senado e a todo o povo romano, em favor dos homens de toda raça injustamente odiados e caluniados: Eu, Justino, filho de Prisco, que o era por sua vez de Bacquio, oriundo de Flavia Neápolis, da Síria, Palestina, e um deles, compus este discurso e esta súplica." O próprio imperador foi solicitado também por outros irmãos da Ásia, importunados com toda sorte de insolência pela população local, e julgou bom enviar ao concilio da Ásia o seguinte transcrito:
Uma carta de Antonino ao concilio da Ásia sobre a nossa doutrina
1."O imperador César Marco Aurélio Antonino Augusto Arménio, pontífice máximo, tribuno da plebe pela décima quinta vez, cônsul por três vezes, ao concilio da Ásia, saudações275;
2.Eu sei que também os deuses se ocupam de que estes não permaneçam ocultos. Efectivamente, eles castigariam muito mais do que vós aos que não queiram adorá-los.
3."A estes estais empurrando para a agitação, uma vez que os confirmais na doutrina que professam acusando-os de ateus. Para eles seria preferível, assim acusados, parecer que morreram por seu próprio Deus a seguir vivendo. Por isso inclusive estão vencendo, porque entregam suas próprias vidas em vez de obedecer ao que vós pretendeis que façam.
4.Quanto aos terremotos passados e actuais, não será demais recordar-vos que vos sentis acovardados quando chegam, e comparais nossa situação à sua.
5.Eles, efectivamente, têm muito maior confiança em Deus, enquanto que vós, em todo o tempo pareceis estar em completa ignorância, descuidais dos outros deuses e do culto ao imortal. Os cristãos o adoram, e vós os maltratais e perseguis até a morte.
6.Em favor destes já escreveram a nosso diviníssimo pai276 muitos governadores das províncias, aos quais respondeu que em nada fossem aqueles molestados, a não ser que fosse evidente que empreendiam algo contra o poder público de Roma. Também a mim muitos me falaram sobre eles, e também respondi seguindo o parecer de meu pai.
7.Mas se alguém persistir em levar algum deles ao tribunal apenas por ser deles, fique o acusado livre de encargos, ainda que seja evidente que é cristão; por outro lado, o acusador ficará sujeito a castigo. "Publicado em Éfeso, no concilio da Ásia."
8.Que assim sucederam as coisas é atestado pelo bispo da igreja de Sardes, Meliton, célebre naquela época, pelo que se percebe na Apologia que dirigiu ao imperador Vero em favor de nossa doutrina.
274 O futuro imperador Marco Aurélio.
275 Eusébio não chega a se entender com os nomes nem com os títulos dos imperadores, pois anuncia uma carta de Antonino mas o cabeçalho é de Marco Aurélio, e ainda assim com falhas.
276 Se a carta é de Marco Aurélio, como indica o cabeçalho, refere-se a Antonino, mas se o autor é Antonino, alude a Adriano.
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Perseguições
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Uma carta de Adriano dizendo que não se deveria perseguir-nos sem julgamento
História Eclesiástica - Eusébio Cesaréia (continuação)
Boa Leitura!
1."A Minucio Fundano: Recebi uma carta que me foi escrita por Serenio Graniano, varão claríssimo, a quem tu sucedeste. Pois bem, não me parece que devamos deixar sem examinar o assunto, para evitar que se perturbe os homens e que os delatores encontrem apoio para suas maldades.
2.Por conseguinte, se os habitantes de uma província podem sustentar com firmeza e às claras esta demanda contra os cristãos, de tal modo que lhes seja possível responder ante um tribunal, devem ater-se a este procedimento somente, e não a meras petições e gritos. Efectivamente, é muito melhor que, se alguém quiser fazer uma acusação, tu mesmo examines o assunto. 3. Portanto, se alguém os acusa e prova que cometeram algum delito contra as leis, julga tu segundo a gravidade da falta. Se porém - por Hércules - alguém apresenta o assunto para caluniar, decide sobre esta atrocidade e cuida de castigá-la adequadamente." Este é o transcrito de Adriano.
Boa Leitura!
1."A Minucio Fundano: Recebi uma carta que me foi escrita por Serenio Graniano, varão claríssimo, a quem tu sucedeste. Pois bem, não me parece que devamos deixar sem examinar o assunto, para evitar que se perturbe os homens e que os delatores encontrem apoio para suas maldades.
2.Por conseguinte, se os habitantes de uma província podem sustentar com firmeza e às claras esta demanda contra os cristãos, de tal modo que lhes seja possível responder ante um tribunal, devem ater-se a este procedimento somente, e não a meras petições e gritos. Efectivamente, é muito melhor que, se alguém quiser fazer uma acusação, tu mesmo examines o assunto. 3. Portanto, se alguém os acusa e prova que cometeram algum delito contra as leis, julga tu segundo a gravidade da falta. Se porém - por Hércules - alguém apresenta o assunto para caluniar, decide sobre esta atrocidade e cuida de castigá-la adequadamente." Este é o transcrito de Adriano.
domingo, 17 de outubro de 2010
De como Trajano impediu que se perseguisse os cristãos
Boa Leitura!
1.Tão grande foi realmente a perseguição que naquele tempo estendeu-se em muitos lugares contra nós, que Plínio Segundo249, notável entre os governadores, inquieto pela multidão de mártires, relata ao imperador sobre o excessivo número dos que eram executados por sua fé, e no mesmo documento adverte que nunca foram surpreendidos cometendo nada ímpio ou contrário às leis, se não for pelo fato de levantarem-se à aurora para entoar hinos a Cristo como a um Deus, mas que adulterar e cometer homicídios e crimes do mesmo tipo também era proibido para eles, e que em tudo agem conforme as leis.
2.A resposta de Trajano foi promulgar um decreto do seguinte teor: que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse. Graças a isto extinguiu-se parcialmente a perseguição, que ameaçava apertar terrivelmente, mas nem por isso faltaram pretextos aos que queriam fazer-nos mal. Algumas vezes eram as populações, outras as próprias autoridades locais que preparavam os assédios contra nós, de forma que, ainda que sem perseguições manifestas, acenderam-se focos parciais, segundo as províncias, e grande número de crentes combateram em diversos gêneros de martírio.
3.O relato foi tomado da Apologia latina de Tertuliano, mencionada mais acima, traduzido, é como segue: "Mesmo assim, encontramos que foi proibido até que nos persigam. Efectivamente, Plínio Segundo, governador de uma província250, depois de condenar alguns cristãos e depô-los de suas dignidades, assustado por seu número e já não sabendo o que lhe restava fazer, consultou o imperador Trajano, alegando que, por não quererem adorar os ídolos, nada de ímpio havia encontrado neles. Informava-lhe também o seguinte: que os cristãos se levantavam à aurora e cantavam hinos a Cristo como a Deus e que, para manter seu conhecimento251, era-lhes proibido matar, cometer adultério, cobiçar, roubar e coisas parecidas. A isto Trajano respondeu que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse." Também isto ocorreu neste tempo.
249 Caio Plínio Cecilio Segundo, conhecido como Plínio o Jovem, sobrinho e filho adoptivo de Plínio o Velho, autor da Historia naturalis.
250 Plínio foi governador da Bitínia em 111-112.
251 Esta expressão fica obscura no texto grego.
1.Tão grande foi realmente a perseguição que naquele tempo estendeu-se em muitos lugares contra nós, que Plínio Segundo249, notável entre os governadores, inquieto pela multidão de mártires, relata ao imperador sobre o excessivo número dos que eram executados por sua fé, e no mesmo documento adverte que nunca foram surpreendidos cometendo nada ímpio ou contrário às leis, se não for pelo fato de levantarem-se à aurora para entoar hinos a Cristo como a um Deus, mas que adulterar e cometer homicídios e crimes do mesmo tipo também era proibido para eles, e que em tudo agem conforme as leis.
2.A resposta de Trajano foi promulgar um decreto do seguinte teor: que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse. Graças a isto extinguiu-se parcialmente a perseguição, que ameaçava apertar terrivelmente, mas nem por isso faltaram pretextos aos que queriam fazer-nos mal. Algumas vezes eram as populações, outras as próprias autoridades locais que preparavam os assédios contra nós, de forma que, ainda que sem perseguições manifestas, acenderam-se focos parciais, segundo as províncias, e grande número de crentes combateram em diversos gêneros de martírio.
3.O relato foi tomado da Apologia latina de Tertuliano, mencionada mais acima, traduzido, é como segue: "Mesmo assim, encontramos que foi proibido até que nos persigam. Efectivamente, Plínio Segundo, governador de uma província250, depois de condenar alguns cristãos e depô-los de suas dignidades, assustado por seu número e já não sabendo o que lhe restava fazer, consultou o imperador Trajano, alegando que, por não quererem adorar os ídolos, nada de ímpio havia encontrado neles. Informava-lhe também o seguinte: que os cristãos se levantavam à aurora e cantavam hinos a Cristo como a Deus e que, para manter seu conhecimento251, era-lhes proibido matar, cometer adultério, cobiçar, roubar e coisas parecidas. A isto Trajano respondeu que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse." Também isto ocorreu neste tempo.
249 Caio Plínio Cecilio Segundo, conhecido como Plínio o Jovem, sobrinho e filho adoptivo de Plínio o Velho, autor da Historia naturalis.
250 Plínio foi governador da Bitínia em 111-112.
251 Esta expressão fica obscura no texto grego.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
De como sofreu o martírio Simeão, bispo de Jerusalém
Boa Leitura!
1.Depois de Nero e Domiciano, conta uma tradição que, sob o imperador cuja época estamos agora investigando242, voltaram a ocorrer perseguições contra nós, parcialmente e por cidades, devido a levantes populares. Nesta época, sobre Simeão, o filho de Clopas, do qual já dissemos que foi o segundo bispo da igreja de Jerusalém, sabemos que terminou sua vida no martírio.
2.Testemunha disto é aquele mesmo Hegesipo, de quem já utilizamos diferentes passagens. Ao falar de alguns hereges, acrescenta claramente que por esse tempo, efectivamente, o mencionado Simeão teve que sofrer uma acusação e que durante muitos dias foi maltratado de muitas maneiras por ser cristão, e que depois de deixar admiradíssimos o juiz e os que o acompanhavam, alcançou um final semelhante à paixão do Senhor.
3.Mas nada melhor do que ouvir o próprio escritor, que relata isto mesmo textualmente como segue: "A partir disto, evidentemente alguns hereges acusam Simão243, o filho de Clopas, por ser descendente de David e cristão, e assim sofre martírio na idade de cento e vinte anos, sob o imperador Trajano e o governador Ático."
4.O mesmo autor diz que inclusive os próprios carrascos foram presos quando se procuraram os descendentes da tribo real dos judeus, já que também eles o eram. Com um pouco de cálculo pudesse dizer que também Simeão viu e ouviu pessoalmente o Senhor, baseando-se na longa duração de sua vida e na menção que o texto dos evangelhos faz de Maria de Clopas244, de quem já se demonstrou que Simeão era filho.
5.O mesmo escritor diz que também outros descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador, de nome Judas, sobreviveram até este mesmo reinado, depois de ter dado testemunho de sua fé em Cristo sob Domiciano, como já referimos anteriormente245. Escreve o seguinte:
6. "Vêm pois, e põe-se à frente de toda a Igreja como mártires e como membros da família do Salvador. Quando em toda a Igreja se fez paz profunda, vivem ainda até o tempo do imperador Trajano, até que o filho do tio do Salvador, o anteriormente chamado Simão246, filho de Clopas, foi denunciado e acusado igualmente pelas seitas, também pela mesma razão, sob o governador
consular Ático. Durante muitos dias torturaram-no e deu testemunho, de maneira que todos, inclusive o governador, ficaram muito admirados de como continuava resistindo apesar de seus cento e vinte anos247 E mandaram crucificá-lo."
7.Depois disto o mesmo autor, explicando o referente aos tempos indicados, acrescenta que efectivamente, até aquelas datas a Igreja permanecia virgem, pura e incorrupta, como se até esse momento os que se propunham corromper a sã regra da pregação do Salvador, se é que existiam, ocultavam-se em escuras trevas.
8.Mas quando o coro sagrado dos apóstolos alcançou de diferentes maneiras o final da vida e desapareceu aquela geração dos que foram dignos de escutar com seus próprios ouvidos a divina Sabedoria, então teve início a confabulação do erro ímpio por meio do engano de mestres de falsa doutrina, os quais, não restando nenhum apóstolo, daí em diante já a descoberto, tentaram opor à pregação da verdade a pregação da falsamente chamada gnosis248.
242 Ou seja, Trajano.
243 Na verdade Simeão.
244 Jo 19:25.
245 Vide XX: 1.
246 (= Simeão).
247 Segundo estes dados, Simeão teria nascido no ano 13 a.C, sendo portanto mais velho que seu primo Jesus.
248 1 Tm 6:20; gnosis significa conhecimento.
1.Depois de Nero e Domiciano, conta uma tradição que, sob o imperador cuja época estamos agora investigando242, voltaram a ocorrer perseguições contra nós, parcialmente e por cidades, devido a levantes populares. Nesta época, sobre Simeão, o filho de Clopas, do qual já dissemos que foi o segundo bispo da igreja de Jerusalém, sabemos que terminou sua vida no martírio.
2.Testemunha disto é aquele mesmo Hegesipo, de quem já utilizamos diferentes passagens. Ao falar de alguns hereges, acrescenta claramente que por esse tempo, efectivamente, o mencionado Simeão teve que sofrer uma acusação e que durante muitos dias foi maltratado de muitas maneiras por ser cristão, e que depois de deixar admiradíssimos o juiz e os que o acompanhavam, alcançou um final semelhante à paixão do Senhor.
3.Mas nada melhor do que ouvir o próprio escritor, que relata isto mesmo textualmente como segue: "A partir disto, evidentemente alguns hereges acusam Simão243, o filho de Clopas, por ser descendente de David e cristão, e assim sofre martírio na idade de cento e vinte anos, sob o imperador Trajano e o governador Ático."
4.O mesmo autor diz que inclusive os próprios carrascos foram presos quando se procuraram os descendentes da tribo real dos judeus, já que também eles o eram. Com um pouco de cálculo pudesse dizer que também Simeão viu e ouviu pessoalmente o Senhor, baseando-se na longa duração de sua vida e na menção que o texto dos evangelhos faz de Maria de Clopas244, de quem já se demonstrou que Simeão era filho.
5.O mesmo escritor diz que também outros descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador, de nome Judas, sobreviveram até este mesmo reinado, depois de ter dado testemunho de sua fé em Cristo sob Domiciano, como já referimos anteriormente245. Escreve o seguinte:
6. "Vêm pois, e põe-se à frente de toda a Igreja como mártires e como membros da família do Salvador. Quando em toda a Igreja se fez paz profunda, vivem ainda até o tempo do imperador Trajano, até que o filho do tio do Salvador, o anteriormente chamado Simão246, filho de Clopas, foi denunciado e acusado igualmente pelas seitas, também pela mesma razão, sob o governador
consular Ático. Durante muitos dias torturaram-no e deu testemunho, de maneira que todos, inclusive o governador, ficaram muito admirados de como continuava resistindo apesar de seus cento e vinte anos247 E mandaram crucificá-lo."
7.Depois disto o mesmo autor, explicando o referente aos tempos indicados, acrescenta que efectivamente, até aquelas datas a Igreja permanecia virgem, pura e incorrupta, como se até esse momento os que se propunham corromper a sã regra da pregação do Salvador, se é que existiam, ocultavam-se em escuras trevas.
8.Mas quando o coro sagrado dos apóstolos alcançou de diferentes maneiras o final da vida e desapareceu aquela geração dos que foram dignos de escutar com seus próprios ouvidos a divina Sabedoria, então teve início a confabulação do erro ímpio por meio do engano de mestres de falsa doutrina, os quais, não restando nenhum apóstolo, daí em diante já a descoberto, tentaram opor à pregação da verdade a pregação da falsamente chamada gnosis248.
242 Ou seja, Trajano.
243 Na verdade Simeão.
244 Jo 19:25.
245 Vide XX: 1.
246 (= Simeão).
247 Segundo estes dados, Simeão teria nascido no ano 13 a.C, sendo portanto mais velho que seu primo Jesus.
248 1 Tm 6:20; gnosis significa conhecimento.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
De como Domiciano ordena a morte aos descendentes de David
Boa Leitura!
1. O próprio Domiciano deu ordem de executar os membros da família de David, e uma antiga tradição diz que alguns hereges acusaram os descendentes de Judas - que era irmão do Salvador segundo a carne —, com o pretexto de que eram da família de David e parentes do próprio Cristo213. Isto é o que declara Hegesipo quando diz textualmente:
Dos parentes de nosso Salvador
1. "Da família do Senhor viviam ainda os netos214 de Judas, seu irmão segundo a carne215, aos quais delataram por serem da família de David. O evocatus216 conduziu-os à presença do césar Domiciano, porque este, assim como Herodes, temia a vinda de Cristo.
2.Perguntou-lhes se descendiam de David; eles o admitiram. Perguntou-lhes então quantas propriedades tinham ou de quanto dinheiro dispunham, e eles disseram que ambos não possuíam mais do que nove mil denários, metade de cada um, e ainda assim afirmaram que não o possuíam em metal, mas que era a avaliação de apenas trinta e nove pletros de terra, cujos impostos pagavam e que eles mesmos cultivavam para viver."
3.Então mostraram suas mãos e juntaram como testemunho de seu trabalho pessoal a dureza de seus corpos e os calos que haviam se formado em suas próprias mãos pelo trabalho contínuo.
4.Perguntados acerca de Cristo e de seu reino: que reino era este e onde e quando se manifestaria, deram como explicação que não era deste mundo nem terreno, mas celeste e angélico e que se dará no final dos tempos; então Ele virá com toda sua glória e julgará os vivos e os mortos e dará a cada um segundo suas obras217.
5.Ante estas respostas, Domiciano não os condenou a nada, mas inclusive desprezou-os como gente vulgar. Deixou-os livres e por decreto fez cessar a perseguição contra a Igreja218.
6.Os que haviam sido postos em liberdade estiveram à frente das igrejas tanto por terem dado testemunho como por serem da família do Senhor, e retornada a paz, viveram até Trajano.
7.Isto diz Hegesipo. Mas não só ele. Também Tertuliano faz uma menção semelhante sobre Domiciano: "Também Domiciano tentou por algum tempo fazer o mesmo que aquele, ainda que não sendo mais que uma parte da crueldade de Nero. Mas como, segundo creio, tinha algum senso, fez que cessasse rapidamente e chamou novamente os que havia desterrado."
8. Depois de Domiciano imperar quinze anos e de sucedê-lo Nerva no governo, o senado romano decidiu por votação que se anulassem as honras de Domiciano e que regressassem a suas casas os que haviam sido expulsos injustamente, e que ao mesmo tempo recuperassem seus bens. Isto é referido pelos que transmitiram por escrito os acontecimentos daquele tempo.
9. Foi então que o apóstolo João, voltando de seu desterro na ilha, retirou-se para viver em Éfeso, segundo relata a tradição de nossos antigos.
213 Não se sabe quem eram estes hereges.
214 No sentido de descendentes.
215 Mt 13:55; Mc 6:3.
216 Soldado veterano mobilizado para serviço dos magistrados em funções administrativas.
217 Mt 16:27; Jo 18:36; Act 10:42; Rm 2:6; 2 Tm 4:1.
218 Pode tratar-se da perseguição à Igreja de Jerusalém, de onde vinham os acusados, mas nada se sabe sobre este
decreto.
1. O próprio Domiciano deu ordem de executar os membros da família de David, e uma antiga tradição diz que alguns hereges acusaram os descendentes de Judas - que era irmão do Salvador segundo a carne —, com o pretexto de que eram da família de David e parentes do próprio Cristo213. Isto é o que declara Hegesipo quando diz textualmente:
Dos parentes de nosso Salvador
1. "Da família do Senhor viviam ainda os netos214 de Judas, seu irmão segundo a carne215, aos quais delataram por serem da família de David. O evocatus216 conduziu-os à presença do césar Domiciano, porque este, assim como Herodes, temia a vinda de Cristo.
2.Perguntou-lhes se descendiam de David; eles o admitiram. Perguntou-lhes então quantas propriedades tinham ou de quanto dinheiro dispunham, e eles disseram que ambos não possuíam mais do que nove mil denários, metade de cada um, e ainda assim afirmaram que não o possuíam em metal, mas que era a avaliação de apenas trinta e nove pletros de terra, cujos impostos pagavam e que eles mesmos cultivavam para viver."
3.Então mostraram suas mãos e juntaram como testemunho de seu trabalho pessoal a dureza de seus corpos e os calos que haviam se formado em suas próprias mãos pelo trabalho contínuo.
4.Perguntados acerca de Cristo e de seu reino: que reino era este e onde e quando se manifestaria, deram como explicação que não era deste mundo nem terreno, mas celeste e angélico e que se dará no final dos tempos; então Ele virá com toda sua glória e julgará os vivos e os mortos e dará a cada um segundo suas obras217.
5.Ante estas respostas, Domiciano não os condenou a nada, mas inclusive desprezou-os como gente vulgar. Deixou-os livres e por decreto fez cessar a perseguição contra a Igreja218.
6.Os que haviam sido postos em liberdade estiveram à frente das igrejas tanto por terem dado testemunho como por serem da família do Senhor, e retornada a paz, viveram até Trajano.
7.Isto diz Hegesipo. Mas não só ele. Também Tertuliano faz uma menção semelhante sobre Domiciano: "Também Domiciano tentou por algum tempo fazer o mesmo que aquele, ainda que não sendo mais que uma parte da crueldade de Nero. Mas como, segundo creio, tinha algum senso, fez que cessasse rapidamente e chamou novamente os que havia desterrado."
8. Depois de Domiciano imperar quinze anos e de sucedê-lo Nerva no governo, o senado romano decidiu por votação que se anulassem as honras de Domiciano e que regressassem a suas casas os que haviam sido expulsos injustamente, e que ao mesmo tempo recuperassem seus bens. Isto é referido pelos que transmitiram por escrito os acontecimentos daquele tempo.
9. Foi então que o apóstolo João, voltando de seu desterro na ilha, retirou-se para viver em Éfeso, segundo relata a tradição de nossos antigos.
213 Não se sabe quem eram estes hereges.
214 No sentido de descendentes.
215 Mt 13:55; Mc 6:3.
216 Soldado veterano mobilizado para serviço dos magistrados em funções administrativas.
217 Mt 16:27; Jo 18:36; Act 10:42; Rm 2:6; 2 Tm 4:1.
218 Pode tratar-se da perseguição à Igreja de Jerusalém, de onde vinham os acusados, mas nada se sabe sobre este
decreto.
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